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Agência CBIC

22/08/2012

"No caminho do meio"

Enquanto o mundo analisa o relatório das Nações Unidas sobre as cidades na América Latina e no Caribe, o economista Ph.D. Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas e cotado para presidir o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), alerta — sem tirar o mérito do estudo inédito — que parte dos números está defasada. Enquanto a ONU aponta que o Brasil é o quarto país mais desigual da região, o especialista afirma que o atual coeficiente de Gini — que mede a concentração de renda — para o país é melhor do que o apresentado na pesquisa. Em entrevista ao Correio, Neri comenta o progresso econômico e social da última década e analisa os desafios colocados pela urbanização e pela expansão da classe média.

O Brasil já foi o país mais desigual da América Latina. Agora, aparece em quarto lugar, à frente de países como Bolívia e Paraguai. É algo a ser comemorado ou é um dado preocupante? Acho que a comparação com a América latina é capciosa, em dois sentidos. A América Latina é a região mais desigual do mundo. Estar em quarto aqui é como estar na "zona de rebaixamento" da quarta divisão. É como eu vejo. Estamos mal na pior categoria. Mas o Brasil tem melhorado bastante. Em dois terços dos países, a desigualdade está aumentando. Agora, essa fotografia era pior antes. É uma estimativa menos desonrosa, mas o Brasil tem melhorado. Na América Latina, em 17 países, a desigualdade vem caindo. Mas ela tem piorado em países mais igualitários, como Costa Rica e Uruguai. Acho que o filme brasileiro é inédito, é interessante. Nunca tínhamos visto isso nas nossas séries estatísticas, a desigualdade em queda contínua. Mas ainda é uma fotografia ruim.

Essa queda da desigualdade foi coerente com o crescimento econômico do país? No "milagre brasileiro" (durante o regime militar), o país cresceu muito, mas a desigualdade piorou. Apesar disso, a pobreza caiu muito. O que está acontecendo na China e na Índia? Algo parecido com esse "milagre". Um crescimento grande com aumento da desigualdade. O Brasil está no caminho do meio, agora. Tanto a desigualdade quanto o crescimento econômico apontam na direção da redução da pobreza. É a sinergia dessas duas variáveis. Não abrimos mão da melhora na desigualdade para crescer mais. A gente não cresce como os tigres asiáticos, mas a nossa desigualdade está em queda. Esse é o tempero brasileiro na redução da pobreza. É um quadro mais equilibrado. Não é um crescimento espetacular, mas é um crescimento a preços populares. É surpreendentemente coerente.

Nos últimos cinco anos, 20 milhões de brasileiros saíram da pobreza. Esse ritmo vai se manter? Acho que tem uma possibilidade de isso acontecer. É difícil, mas estamos na direção da queda da pobreza. Ela caiu 50,5% nos oito anos de governo Lula. E agora se fala em erradicação da pobreza. Que é algo muito difícil. Mas comparar com os últimos anos é perigoso, pois agora temos mais incertezas, estamos passando pela segunda crise externa consecutiva. Ainda assim, a desigualdade segue caindo.

Qual o peso dos programas sociais, como o Bolsa Família, nessa queda da desigualdade? O Bolsa Família, na nossa conta, explica 17% na queda da desigualdade. A previdência explica mais 15,6%. Ou seja, um terço é transferência de renda e dois terços é renda do trabalho, que reflete educação, emprego com carteira assinada. Esses programas são importantes, mas não são o principal agente. É uma base de redução de pobreza que se apoia na redução da desigualdade e no crescimento. Por sua vez, a redução de desigualdade se apoia no mercado de trabalho, no Bolsa Família e nos benefícios previdenciários. É uma melhora social numa base ampla. Não se deve a um único instrumento.

O tamanho do país é um obstáculo para a redução da desigualdade? Deveria ser, mas não tem sido. É um país grande, diverso e desigual. Mas é um país integrado culturalmente. Falamos a mesma língua, assistimos ao mesmo futebol, comemos o nosso arroz com feijão. Temos um Estado grande. Guloso, de um lado, porém, generoso, de outro. E temos os programas de escala nacional. Alguns bons, como o Bolsa Família. Não é um empecilho. É só mais complexo.

Quais desafios surgem com a urbanização e a expansão da classe média? Em 2020, 90% da nossa população será urbana. Hoje, 85% estão nas cidades, como era em 2000. O Brasil já é muito urbano. Mas não acho que se tornará muito mais que isso. Até porque a renda na área rural cresceu 49% na década passada. Até no campo os programas sociais são importantes e o processo de migração parou. Tem um termo que os estrangeiros usam, "brasilienização", que é o crescimento desordenado das grandes cidades. Acho que superamos a fase da crise metropolitana desde 2003. No entanto, temos enormes desafios. O abastecimento é um deles. Mas você tem economias de escala que acabam sendo deseconomias urbanas. No caso do saneamento, por exemplo: metade da população não tem. É um absurdo, quando 85% da população está nas cidades. Acho que morar em cidades não é sinônimo de problema. Tem mudanças em processo, o crescimento da renda, programas sociais. São boas notícias. Vamos melhorar.

As favelas foram muito citadas no estudo, assim como as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Elas também vivem uma transformação? Sou um entusiasta das UPPs, acompanho de perto. A própria UPP e a melhora que ela gera atraem mais gente para a favela, mas não é um quadro mais complicado do que era antes. Elas entregaram o choque de segurança, de ordem, e com isso impactaram a situação econômica. O valor dos aluguéis nas favelas, depois das UPPs, cresceu 7,5% acima do preço do asfalto. É um sinal de vitalidade econômica. Vemos quedas das perdas elétricas muito grandes, o que é bom para as empresas de energia, mas vai causar impacto na conta de luz do morador. Tudo tem os dois lados. Mas acho que tem um ganho para todo mundo. Falta agora a gente pensar com mais detalhe num choque de progresso.

Correio Braziliense – 22/08/2012

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