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18/03/2015

Mercado de trabalho esfria e reduz renda e consumo

"Cbic"
18/03/2015

Valor Econômico – 18 de março

Mercado de trabalho esfria e reduz renda e consumo

Novos dados reforçam a tendência de aumento do desemprego neste ano e de redução da renda.

 O sinal de alerta veio agora da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), que passou a ser divulgada mensalmente, mas sempre refletindo o comportamento trimestral do mercado de trabalho. No trimestre encerrado em janeiro, a taxa de desemprego ficou em 6,8%, acima dos 6,5% do trimestre anterior e dos 6,4% de igual período de 2014.

 Outros indicadores já haviam sinalizado a tendência de deterioração do mercado de trabalho, de resto esperada em função da desaceleração da economia e do aumento da inflação. Um deles foi a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), também apurada pelo IBGE, mas compreendendo seis das principais regiões metropolitanas e não todo o país como a Pnad. A PME registrou uma taxa de desemprego de 5,3% em janeiro, um ponto acima do verificado em dezembro. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), revelou o fechamento de 81,8 mil postos de trabalho formal no primeiro mês do ano, o pior resultado para janeiro desde 2009, no auge da crise internacional.

 Mas a Pnad Contínua traz outras informações preocupantes. A pesquisa mostra uma persistente queda da renda média real ao longo de cinco trimestres seguidos, do período encerrado em julho até o concluído em novembro, que não havia sido detectada pela PME, que abrange uma área menor. A renda média do trabalhador medida pela Pnad acabou fechando 2014 com aumento de 1,1%, bem inferior ao de 3,3% registrado em 2013.

 A queda de renda teria sido a responsável pelo aumento da procura por trabalho, em proporção superior à oferta de novos postos, resultando então em uma taxa de desemprego mais elevada. Quando o emprego estava mais aquecido e a renda da família era maior, uma parcela da população em idade ativa, notadamente os jovens e as mulheres, podia sair do mercado de trabalho para estudar ou cuidar dos filhos.

 Esse mecanismo ajudou a reduzir o desemprego mesmo quando a economia começou a desacelerar.

 Agora isso começa a mudar. A renda menor na família leva mais pessoas a procurar trabalho em um momento em que a economia não permite que se absorva esse pessoal.

 Indicadores antecedentes da Fundação Getulio Vargas mostram que a situação do mercado de trabalho continuou deteriorando-se em fevereiro e que as expectativas são negativas para os próximos meses, com previsão de aumento das demissões.

 Esse clima influencia negativamente a confiança dos consumidores, já fragilizada pelo aumento das tarifas de transporte e energia, dos combustíveis e dos preços dos alimentos, sem falar na crise hídrica e no encarecimento do crédito, pondo em dúvida o desempenho econômico deste ano (Valor 16/3). As investigações da operação Lava-Jato e o clima político carregado certamente contribuem para anuviar o ânimo do consumidor.

 Na semana passada, o IBGE divulgou que o volume de vendas no varejo restrito cresceu 0,8% em janeiro, não recuperando a queda de 2,6% de dezembro. Já no varejo ampliado, que inclui automóveis e material de construção, as vendas aumentaram 0,6%, o que também não compensa o tombo de 3,6% de dezembro.

 Em metade das dez atividades pesquisadas pelo IBGE as vendas caíram.

 O ajuste fiscal, embora necessário, tende a acentuar o clima negativo para o mercado de trabalho e consumo. Uma das medidas do pacote enviado ao Congresso deve ter impacto direto no emprego: a mudança na contribuição ao INSS. Na desoneração promovida pelo ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, 56 setores da economia foram beneficiados com a substituição do recolhimento de 20% sobre a folha de pagamento por um percentual sobre o faturamento, variável conforme o ramo de atividades. A contrapartida exigida era a manutenção e expansão do emprego.

 De concreto, essa desoneração causou problemas no caixa do governo que pretende agora mudar a regra para deter a sangria.

 Embora seja discutível se essa regra contribuiu para preservar o emprego em todos os setores beneficiados, certamente a mudança será a justificativa para demissões.

 


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