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16/04/2012

Economia verde: preservar o planeta pode dar lucro

"Cbic"
16/04/2012 :: Edição 298

 

Veja.com/BR 15/04/2012
 

Economia verde: preservar o planeta pode dar lucro

A caminho da Rio+20, governos, empresas e pesquisadores debatem como fazer a guinada para um modelo que não esgote o meio ambiente e que seja economicamente atrativo 

 "No fundo, a economia verde pode manter a situação atual de dominância dos ricos em relação aos pobres. Como nós não temos dinheiro suficiente para investir em tecnologia, acabaríamos tendo que importar os painéis solares e as turbinas eólicas fabricadas por eles", diz Suzana Kahn
 "Algumas pessoas dizem que a economia verde tem essa cor por causa do dólar", afirma, em tom de brincadeira, o embaixador André Aranha Corrêa do Lago . O negociador chefe do Brasil para a Rio+20  se permite zombar dos radicalismos, mas admite que o tema central da conferência da ONU, que ocorre entre 16 e 22 de junho no Rio, ainda carece de definições. Fora a referência óbvia às causas ambientais, o verde, nesse caso, representa o que não é "marrom", como é chamado o modelo que domina a maior parte das atividades econômicas, em que o avanço de empresas e governos implica em um alto custo para a natureza e a qualidade de vida do homem. O modelo almejado é aquele em que o uso dos recursos do planeta se dá de forma sustentável, sem riscos a espécies e ecossistemas, mas também sem inviabilizar o avanço dos negócios e o bem-estar.
 Economia verde é crescimento, erradicação da pobreza e justiça social  
 Contagem regressiva para a Rio+20  
 Como qualquer atividade econômica, que movimenta lucros e interesses, há preocupações com a nova ordem que pode emergir a partir de propostas e modelos discutidos em encontros como a Rio+20. O Rio de Janeiro, na posição de quem deve dar exemplos como sede da conferência, criou uma subsecretaria estadual para a economia verde, ligada à secretaria de Meio Ambiente. Pioneira na implementação do conceito em nível governamental no Brasil, a subsecretária Suzana Kahn, que foi vice presidente do Painel Intergovernamental de mudanças climáticas (IPCC) até 2014, prefere ver a questão com o pé no chão. "No fundo, a economia verde pode manter a situação atual de dominância dos ricos em relação aos pobres. Como nós não temos dinheiro suficiente para investir em tecnologia, acabaríamos tendo que importar os painéis solares e as turbinas eólicas fabricadas por eles", exemplifica. Outra área sensível apontada por Suzana é a possibilidade de os países desenvolvidos usarem as novas regras economia verde para implementar barreiras comerciais protecionistas. "O que precisamos é criar salvaguardas para que isso não crie distorções", alerta.
 Desde já estão sendo discutidas formas de fazer com que, a partir da Rio+20, empresas, governos e entidades não governamentais possam estimular uma guinada em relação ao sistema de exploração dos recursos naturais de hoje. O "modus operandi" da economia atual falhou, afirma Suzana, ao deixar de resolver os desafios impostos pelo meio ambiente, ao não se mostrar eficaz para dividir riqueza e ao deixar de promover melhor qualidade de vida para boa parte da população. A economia, até aqui, caminhou desprezando a limitação dos recursos naturais e criou problemas que vão além dos países, dos continentes, como problemas climáticos, desequilíbrios de abastecimento e elevação do risco de desastres naturais.
 Para Suzana, esse é o quadro "não é sustentável". "Temos todos os motivos para nos prepararmos para um mundo sem petróleo, que é um recurso finito. Por isso, o Rio é um local ideal para se praticar o exercício da economia verde. Temos que aprender a saber migrar e ter um tipo economia que não dependa tanto desses recursos", explica.
 Enquadrar a questão social na discussão é justamente a grande preocupação do Brasil em relação às implicações da economia verde. Uma das propostas brasileiras é a de acréscimo da expressão "inclusiva" ao termo, no documento final da Rio+20. "Em economia verde inclusiva, você teria os três pilares do desenvolvimento sustentável, que são o econômico, o ambiental e o social", afirma Corrêa do Lago. Para o embaixador, o maior obstáculo para as políticas do desenvolvimento sustentável é dificuldade de enquadrar o aspecto econômico. "É raro ver uma pessoa da área econômica se referindo a desenvolvimento sustentável", afirma Corrêa do Lago.
 1,3 trilhão de dólares para reciclar o mundo 
 A grande virada da economia verde é convencer de que, apesar de requerer mais investimentos a curto prazo – assim como a maioria das iniciativas de sustentabilidade -, o sistema proposto se mostra lucrativo no longo prazo. Ou seja, do ponto de vista do relatório da Iniciativa para Economia Verde (GEI, sigla em Inglês), a economia marrom atual é menos rentável. A partir da perspectiva de lucro, atrai-se – ou, pelo menos, espera-se atrair – o empresário.
 Melinda Kimble, vice-presidente do Fundo para as Nações Unidas, órgão especializado em arrecadar recursos para ajudar a financiar a ONU, afirma que essa é uma forma de engajar a iniciativa privada. "O setor privado não faz doações. Ele precisa de um retorno no investimento para mobilizar recursos. É por isso que precisamos da economia verde", explica.
 De forma prática, o relatório da GEI aponta para dez setores chave para onde os recursos devem se encaminhar: edificações, florestas, turismo, água, gerenciamento de lixo, energia renovável, transportes, pesca, indústria e agricultura. O documento, que congrega ideias e avaliações sob o ponto de vista da economia verde, aponta a necessidade de investimento anual de 2% do PIB mundial, o que corresponde a aproximadamente 1,3 trilhão de dólares, nos patamares atuais.
 Conheça as recomendações da ONU para a economia verde: 
 Edificações
 Um terço da energia utilizada no mundo é gasta dentro de prédios, e o setor de edificações é o que mais emite gases no planeta. O setor de construção civil é responsável por mais de um terço do consumo de recursos, incluindo 12% do consumo de água potável. O relatório GEI considera necessários investimentos de 300 bilhões de dólares por ano até 2050 no setor. Prédios públicos, como escolas e hospitais, são ideais para começar a estimular a indústria da construção civil a adotar práticas sustentáveis: melhor ventilação e aproveitamento da luz natural, por exemplo. O setor tem o potencial de garantir a economia de um terço no consumo de energia. No Brasil, o projeto do conjunto habitacional Rubens Lara, em Cubatão, foi reconhecido pela ONU, através do Sushi (sigla em inglês para iniciativa para habitação social sustentável). Os prédios têm janelas maiores e aquecem a água com energia solar. Construir dessa forma, atualmente, custa 10% a mais.
 Florestas
 Os níveis de desmatamento atuais são alarmantes: 13 milhões de hectares por ano. Plantações de grãos e pasto avançam sobre a vegetação nativa. Os investimentos necessários para o setor são da ordem de 40 bilhões de dólares anuais até 2050 em reflorestamento e proteção de florestas. E economia verde, nesse setor, visa a garantir o sustento de 1 bilhão de pessoas no mundo, a conservação da água e a proteção de 50% das espécies terrestres. Produtos da floresta ganham em valor por serem renováveis, recicláveis e biodegradáveis. No Brasil, o exemplo vem do projeto de colheita e beneficiamento de castanha, no Acre. Na Cooperacre, trabalham mais de mil famílias, sem desmatamento. O modelo ajuda o Acre a liderar há 17 anos a produção de castanha no Brasil (36% em 2011). A Nestlé deve começar uma parceria com o estado ainda este ano. Atualmente, 60% da castanha do Acre é industrializada no próprio estado.
 Água
 Quase 1 bilhão de pessoas no mundo não tem acesso a água limpa e potável. Para 2,6 bilhões não existe saneamento básico. Nesse quadro, 1,4 milhão de crianças abaixo de cinco anos morrem todos os anos por doenças causadas por falta de higiene e água. Se não houver melhoria, a demanda vai superar a oferta de água em 40% nos próximos 20 anos. Se os investimentos permanecerem os mesmos, a meta do milênio para o saneamento vai deixar de ser atendida para 1 bilhão de pessoas. A ONU recomenda investimentos de 198 bilhões de dólares por ano em infraestrutura nas próximas quatro décadas. No Rio, surge um bom exemplo: o estado está construindo um duto de 49 quilômetros sob a Baía de Guanabara, ligando a Estação de Tratamento de Esgoto Alegria ao complexo petroquímico de Itaboraí. O duto vai bombear 1,5 mil litros de esgoto tratado por segundo para ser utilizado no resfriamento e geração de vapor do Comperj. O reuso da água pode diminuir em 80% a conta de água da empresa.
 Turismo
 Natureza atrai turistas. Poluição não atrai ninguém. Manter o patrimônio natural garante aos países, estados e cidades participação em um mercado que move 5% do PIB mundial e emprega 8% da população. Mas o fluxo de turistas atualmente é "marrom": responde por 5% das emissões de gases poluentes no mundo. O relatório da ONU estima que um terço dos viajantes estariam dispostos a pagar até 40% a mais por formas de turismo ecologicamente corretas. No Brasil, o melhor exemplo de convivência de turistas com o meio ambiente é Bonito, no Mato Grosso do Sul. A cidade fez da conservação e da proteção de seus lagos, rios e grutas o maior ganho econômico. Um bem-sucedido esquema de vouchers controla a lotação diária de visitantes nos principais atrativos da cidade, certificando de que eles serão preservados, e controla a tributação sobre as visitas, fazendo com que o município obtenha ganhos para investir em infraestrutura, saúde e educação para a população local.
 Agricultura
 O mundo produz mais comida do que precisam os 7 bilhões de habitantes do planeta. Mas a má distribuição da economia marrom faz com que 1 bilhão ainda passe fome, principalmente na África subsaariana. A tendência atual é de agravamento do problema. A produção de alimentos não vai suplantar o crescimento da classe média. Segundo o relatório da ONU, a transição para uma agricultura verde requer investimentos de 198 bilhões de dólares anuais até 2050. O projeto de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF), parte das metas para redução de emissões de carbono no Brasil, pretende evitar a emissão de até 22 milhões de toneladas de carbono através de incentivos de utilização variada do solo. Até fevereiro, 2,144 agricultores retiraram financiamento do governo para adotar a chamada Agricultura de Baixa Emissão de Carbono, onde a iLPF é empregada. Um exemplo é o plantio da árvore "teca" em propriedades de Rondônia que antes eram utilizadas apenas para a pecuária.
 Gerenciamento de lixo
 O mundo marrom do lixo é bem conhecido. Todo o ano são produzidos 11,2 bilhões de toneladas de lixo no mundo, que geram 5% das emissões de carbono. Com investimento de 152 bilhões de dólares em quarenta anos na coleta de lixo e reciclagem, haverá 10% a mais de geração de empregos do que na economia de hoje. O mercado do lixo em uma economia verde está avaliado em 410 bilhões de dólares/ano, um dos mais atraentes do planeta. A geração de energia a partir dos resíduos é estimado em 19,9 bilhões de dólares. No Rio de Janeiro, a Hatzec planeja realizar o aproveitamento do gás metano liberado pelo lixo proveniente de aterros sanitários para a geração de energia elétrica. O processo ocorre no recém-inaugurado Central de Tratamento de Resíduos de São Gonçalo. A empresa planeja inaugurar outra usina em Barra Mansa. No entanto, a geração de energia nessas unidades só pode ser alcançada após quatro anos do início da operação no aterro.
 Energia renovável
 A temperatura global vai aumentar em mais de 2 graus devido à emissão de poluentes. Com a matriz energética atual, 1,4 bilhões de pessoas ainda não têm acesso a eletricidade e 2,7 bilhões dependem de madeira para cozinhar. Os combustíveis fósseis poluem, geram doenças e aumentam a acidez dos oceanos. A ONU sugere investimento de 650 bilhões de dólares nos próximos 40 anos em geração de energia proveniente de fontes renováveis. A produção e utilização do etanol no Brasil é vista como um bom exemplo de utilização de energia renovável. O parque eólico de Osório, no Rio Grande do Sul, é um exemplo da tentativa de aplicar energia renovável no Brasil – que já tem mais de 40% de sua matriz energética dependente de fontes renováveis (principalmente hidrelétricas). O parque conta com 75 turbinas que têm a capacidade de gerar 425 milhões de kw/h por ano, ou seja, alimentar uma cidade de aproximadamente 650 mil habitantes.
 Pesca
 O setor responsável por lucros de 8 bilhões de dólares anuais para as empresas pesqueiras que empregam 170 milhões de pessoas no mundo está em declínio. A indústria pesqueira tem deixado de movimentar 26 bilhões por ano, o que exige 27 bilhões em subsídios ao setor. Isso gera pesca em excesso e a degradação dos estoques de peixes. A economia verde propõe um único investimento de 100 a 300 bilhões de dólares para o setor reduzir os excessos. O projeto do Instituto Terramar, em Flecheiras, no Ceará, contempla 416 famílias que dependem direta ou indiretamente da pesca artesanal. A extração de algas dos recifes marinhos para a comercialização destinada às indústrias de cosméticos e de alimentos degradou os estoques naturais da região. A solução encontrada foi o cultivo. Agora, os pescadores são instruídos a coletar as algas, conservando a raíz, o que aumenta a produtividade e gera mais renda para as famílias.
 Indústria
 As indústrias respondem por 35% do uso de energia elétrica no mundo, por 20% das emissões de CO2 e por mais de um quarto da extração de recursos primários. Também contribuem para 17% da poluição do ar relacionada a problemas de saúde, que custam até 5% do PIB mundial. Entre as medidas para diminuir esse impacto, o relatório sugere aumento de 10% na vida útil de cada produto. O mercado de produtos reutilizáveis compensaria a perda de empregos no setor. Um sistema de taxas de carbono e regulamentação confiável são essenciais para assegurar que o setor acrescente os custos ambientais no cálculo de seus preços. Em São José dos Campos (SP), o complexo da Johnson&Johnson abriga 11 fábricas e tem uma estação própria de tratamento de esgoto. As escovas de dente produzidas pela empresa utilizam plástico reciclado de aparas não aproveitadas da fabricação de absorventes. A empresa passou a utilizar gás em geradores, em vez de petróleo.
 Transporte
 O carro, o ônibus, o caminhão e as motos são os grandes vilões da economia marrom. Consomem mais da metade dos combustíveis fósseis no mundo, são responsáveis por um quarto das emissões de CO2, causam 80% da poluição do ar em cidades de países em desenvolvimento e causam a morte de 1,27 milhão de pessoas a cada ano em acidentes. O custo médio é de 10% do PIB de cada nação. Nos cenários testados pelo relatório, um investimento de 0,34% do PIB mundial em infraestrutura de transporte público e aumento da eficiência dos veículos a motor pode reduzir as emissões em 70%, diminuir o tempo gasto em viagens e reduzir o uso de combustível em um terço. A ONU utiliza a cidade de Curitiba, capital do Paraná, como exemplo de eficiência de transporte público. O planejamento urbano da cidade torna o trânsito eficaz, evita congestionamentos e estimula o uso de veículos coletivos.

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