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26/09/2011

A teoria sustentável

"Cbic"
26/09/2011 :: Edição 184

Jornal Revista Carta Capital – 24/09/2011

 

A teoria sustentável

Transformar a economia mundial sairia mais barato que mantê-la como é hoje

O século XX finalmente chegou ao fim. Acabou a era das energias baratas e não é mais possível continuar a empurrar as externalidades da economia para baixo do tapete da natureza. Também não é mais possível ignorar que apenas um terço da humanidade tem um padrão de vida capaz de suprir todas as necessidades em alimentos, habitação, saúde, educação e trabalho. Para muitos especialistas, o planeta vive uma convergência de crises, de onde deve emergir uma nova forma de produzir, consumir e viver, então há um plano B que permita deixar tudo como está e seguir vivendo em paz. "O combate à desigualdade e a adequação da economia às necessidades climáticas e ambientais devem ser o centro das discussões econômicas, e não pode mais ser apenas uma reflexão teórica", aponta Ricardo Abramovay, professor da Faculdade de Economia da USP.
 O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lançou, em 2008, o estudo Economia Verde (GEI, em inglês). O relatório foi a primeira tentativa de indicar soluções para o impasse que se formou na economia tradicional. No início de 2011, o organismo da ONU publicou outro estudo, intitulado Rumo à Economia Verde: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da Pobreza, assinado por seu diretor-executivo, Achim Steiner,e pelo economista sênior do Deutsche Bank, o indiano Pavan Sukhdev. O novo texto mostra como diversos setores – energias renováveis, tecnologias limpas e eficientes, serviços de água e pesca sustentável – podem gerar empregos, aquecer a economia e produzir um crescimento limpo. Uma tese já apresentada por Ignacy Sachs, que defende o uso de biomassas para alavancar um modelo econômico com novas empresas e novas tecnologias, com mais distribuição de renda pelo trabalho e com uma grande capacidade de regeneração de biomas e ecossistemas. "Podemos produzir alimentos e matérias-primas na terra, nos rios e mares, e garantir qualidade de vida para todos os habitantes do planeta", assegura.
 Mesmo com um novo olhar sobre os dilemas ambientais e as oportunidades que se abrem na economia, o relatório deixa algumas perguntas em aberto. Uma delas é sobre o financiamento dessa transição. O Pnuma aponta a necessidade de um investimento anual de 2% do PIB global, cerca de 1,3 trilhão de dólares, valor próximo a 10% do que se gastou com a crise financeira e menos do que se investe para manter as guerras atuais pelo mundo. O problema, segundo John Elkington, reconhecido como criador do conceito do Triple Bottom Line, que preconiza o equilíbrio social, ambiental e econômico das ações humanas,é que a maioria dos países esgotou sua capacidade de investir por meio dos pacotes de estímulo à economia,e pouco foi pedido em termos de contrapartidas para limpar a economia. "Ainda prevalece o mito de que implantar infraestrutura e projetos verdes tende a ser mais caro, e isso desestimula a transição", aponta. Como explica o empresário e arquiteto Marcelo Takaoka, responsável por inúmeros "edifícios verdes", a conta deve, porém, incluir a operação e a manutenção dos projetos, e não apenas a implantação. "Muitas vezes, os custos adicionais em materiais e tecnologias na construção são amplamente compensados com o baixo consumo de energia, água e outros materiais durante a vida útil do empreendimento.
 Há, no desafio proposto para a Rio+20, a questão da governança global para a economia verde. "Não existe no mundo uma instituição capaz de coordenar as questões ambientais", diz Rubens Born, da ONG Vita Civilis, que articula as ações da sociedade civil brasileira em relação à conferência do ano que vem."O próprio Pnuma é apenas um programa, com ações limitadas. Falar em fundos para economia verde nesse contexto é quase impossível. Governança é tão importante quanto a própria economia", explica Born. Outro ponto é descobrir o quanto as empresas estão preparadas para mudar. Muitas ainda não se livraram do fantasma da maquiagem verde, ou greenwash.
 Um desafio lançado pela rede varejista Walmart Brasil a13 grandes empresas mostrou que, quando há vontade, é possível produzir com redução no uso de matérias-primas e eficiência energética. O estudo foi publicado no relatório sustentabilidade de Ponta a Ponta, que analisou os ciclos de vida dos produtos desde a extração dos recursos naturais até a fase de pós-consumo. Os resultados globais do projeto indicaram uma economia de 3.171 toneladas em emissão de gás carbônico, uma redução de 233.430 litros no consumo de óleo diesel, uma economia de energia equivalente a 8 milhões de lâmpadas e menos 2,403 milhões de litros de água. Desse projeto participaram empresas do porte da AmBev, Danone, Philips, Whirlpool, Sara Lee e L'Oréal, entre outras. E essa foi a segunda edição. Na primeira, em 2009, outras dez empresas aceitaram o mesmo desafio, e os processos foram auditados por especialistas do Centro de Tecnologia de Embalagens (Cetea), ligado ao governo do estado de São Paulo.
 O consultor Ricardo Voltolini, autor do livro Conversa com Líderes sustentáveis, em que entrevista dez dos principais executivos brasileiros com reputação nessa área, conta que a maioria das empresas que atuam no Brasil está em um estágio de transição do que seriam quatro passos para produzir com menos impacto ambiental. "Ainda há os que acreditam que apenas pagar os impostos é cumprir o seu papel. Outros acham que sustentabilidade é assinar um cheque e entregar para um projeto social. E há aqueles que têm práticas sociais e ambientais muito pontuais. Eles são a maioria das grandes empresas no Brasil." O quarto estágio é incluir sustentabilidade na gestão, o que depende de uma liderança em primeiro escalão. "Nas empresas onde o conceito de produção com menos impactos avançou, existe essa liderança: pessoas comprometidas não só profissionalmente, mas socialmente, e que acreditam na interdependência de suas ações", diz.
 Para Elkington, da Sustainability, as mudanças nas empresas também estão ligadas ao caráter e à imaginação de seus líderes. Valorizar os investimentos em inovações que apoiem essa mudança é uma questão-chave. "É difícil encontrar empresas que aceitem ser incubadoras, por isso as inovações tendem a aparecer nas bordas do sistema e envolvem pessoas de quem nunca ouvimos falar. Ninguém conhecia Larry Page e Sergey Brin antes de o Google levantar voo." Para ele, a grande pergunta é saber quem vai ser o novo Bill Gates da economia verde.
 Mesmo com a evolução no mundo empresarial, o aumento do consumo pode ser um obstáculo para a redução de impactos sobre os ecossistemas. Produtos mais eficientes e baratos podem ter impacto menor por unidade, mas um aumento exponencial nas vendas viria a representar um crescimento proporcional nos efeitos sobre o meio ambiente. O economista Eduardo Giannetti da Fonseca costuma citar o exemplo dos aparelhos de ar-condicionado nos EUA. "Dos anos 1950 para cá, eles se tornaram mais eficientes, individualmente gastam menos energia e custam mais barato, por isso hoje apenas o consumo de energia desses aparelhos é igual a toda a eletricidade que o país gastava em 1950. "Quanto mais eficientes ficam, maior é o consumo.
 O Brasil, em relação à construção de uma economia verde, tem muitas vantagens e alguns importantes dilemas. Entre os pontos fortes está uma base de produção de energia ainda relativamente limpa, com mais da metade da eletricidade sendo produzida a partir de usinas hídricas. Também há o álcool, que coloca o Pais na liderança em produção de biocombustiveis e uma frota de veículos que permite aos consumidores decidirem o que usar nos postos de abastecimento. Há muita terra para produzir alimentos e biomassas de toda ordem, mas é preciso trabalhar melhor o uso e a destinação desses recursos, explorados sem critérios e sem um consenso entre sociedade e políticos. Exemplo desse descasamento de expectativa é a recente aprovação na Câmara do novo Código Florestal, muito mais flexível que o anterior, vigente desde 1965. Os deputados aprovaram o projeto, que agora está no Senado, por 80% dos votos. Uma pesquisa realizada pelo Datafolha na época da votação mostrou que 80% dos brasileiros eram contra a aprovação da nova lei.
 Entre os dilemas estão algumas das principais commodities de exportação do Brasil ,como a carne bovina. O País é o maior exportador mundial e, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o avanço das pastagens sobre a Floresta Amazônica é responsável por 70% do desmatamento na região. Isso empurra a pecuária para a incômoda posição de responsável por grande parte das emissões de gases que aquecem o planeta, uma vez que o Brasil é o quinto no ranking dos maiores poluidores mundiais justamente por causa do desmatamento. Sem incorporar as emissões por desmatamento o País cai para o 14o lugar entre os que mais contribuem para as mudanças climáticas.
 Nos próximos anos, o Brasil terá de lidar ainda com o aumento de sua produção de petróleo. Estimativas da Petrobras podem colocar o País em sexto lugar entre os grandes produtores mundiais e já se discute a aplicação dessa inesperada riqueza. O primeiro desafio será investir 120 bilhões de dólares, segundo dados da Petrobras, para trazes esse óleo do subsolo marinho para as refinarias, sejam nacionais ou para exportação. Com esse dinheiro, segundo o cientista Antonio Nobre, que atua no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e é um dos especialistas brasileiros em temas climáticos, daria para tornar competitivas outras formas de energia, como eólica ou solar. "É uma questão de decisão política e força do lobby petroleiro."
 Em junho de 2012, quase 200 chefes de Estado e de governo estarão no Rio de Janeiro para debater a Economia Verde e a Governança Global. Organizações da sociedade civil, empresas e representantes do poder público mobilizam-se para garantir que a conferência vá além dos discursos. "Precisamos aproveitar a oportunidade para pautar esse debate de forma clara. E estabelecer os limites do desenvolvimento da forma como estamos promovendo", diz Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental. "O que não podemos deixar acontecer é ser apenas um encontro com muito marketing e nenhum tipo de conclusão, pois não há mais tempo para isso."
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 O que é a Economia Verde | Acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis é condição especial
 No início deste ano, o Pnuma apresentou a mais de uma centena de chefes de Estado o relatório Rumo a uma Economia Verde: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da Pobreza, com uma avaliação do estado socioambiental do mundo e os impactos que o atual modelo econômico tem sobre o capital natural. Assinado por Pavan Sukhdev, economista-chefe do Deustche Bank, e pelo diretor-geral do Pnuma, Achim Steiner, o texto convoca governos, empresas e sociedade a atuar para mudar os rumos da economia em direção a um modelo que garanta maior justiça social a 2,5 bilhões de seres humanos que vivem com menos de 2 dólares ao dia, a redução de gases de efeito estufa para um nível de menor impacto climático e consiga garantir alimentos e habitação para os quase 3 bilhões de novos habitantes que o planeta terá até 2050.
 Um dos principais pontos é acabar com os subsídios globais aos combustíveis fósseis, que hoje atingem 600 bilhões de dólares ao ano, e redirecionar mais de 20 bilhões de dólares em subsídios inadequados, que reforçam o modelo ambientalmente predatório, como as atividades de pesca e pecuária. A Economia Verde não pretende sufocar o crescimento e a prosperidade, mas sim, restabelecer a ligação com a verdadeira riqueza, reinvestir em vez de simplesmente explorar o capital natural e beneficiar muitos em lugar de poucos, e também deve reconhecer a responsabilidade intergeracional das nações para manter um planeta saudável, funcional e produtivo aos jovens de hoje e aos que estão para nascer, diz Sukhdev.
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 As vantagens do Brasil: energia renovável e terra em abundância. O dilema: como controlar os danos da produção extensiva de commodities
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 10 setores para uma produção sustentável
 Os setores fundamentais para tomar a economia mais verde são: agricultura, construção, abastecimento de energia, pesca, silvicultura, indústria, turismo, transportes, manejo de resíduos e água.
 Dos 2% do PIB (1,3 trilhão de dólares), os montantes investidos para o esverdeamento por setor seriam:
 108 bilhões de dólares para a agricultura, incluindo as pequenas propriedades e produção familiar.
 134 bilhões para o setor imobiliário, que deverá buscar mais eficiência energética, redução de resíduos e redução no uso da água.
 Mas de 360 bilhões de dólares para o abastecimento de energia, com a implantação de geração mais limpa, mais eficiência no uso e monos perdas no sistema de distribuição.
 Quase 110 bilhões de dólares para a pesca, incluindo a redução de capacidade das frotas mundiais e o aumento da produção de peixes em aquaculturas.
 15 bilhões de dólares para a economia florestal, o que ajudaria também no combate às alterações climáticas.
 Mais de 75 bilhões de dólares para a indústria, incluindo a de produtos manufaturados, para a otimização no uso de matérias-primas, água e energia.
 Quase 135 bilhões de dólares para o setor de turismo, para geração de renda e emprego.
 Mais de 190 bilhões de dólares para os transportes, para a redução das emissões de carbono e reduzir o impacto dentro das cidades.
 Quase 110 bilhões de dólares para a gestão de resíduos, incluindo a reciclagem.
 Mais de 100 bilhões de dólares para o setor de água, incluindo questões de saneamento. 

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