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28/03/2011

Sindicatos contra o PAC

 

28/03/2011 :: Edição 065

Revista Istoé/BR   |   27/03/2011

sindicatos contra o pAc

80 mil operários paralisam obras e
se tornam nova ameaça ao programa do governo federal. A agitação fugiu do
controle das centrais sindicais, convocadas para abafar o movimento

GREVE

Operários que constroem a refinaria
de Abreu e Lima, em Pernambuco, entram em greve

CONTROLE

Cerca de 500 homens da Força
Nacional foram enviados a Jirau para evitar novos conflitos

As obras do Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC) já enfrentaram toda sorte de problemas desde que o pacote
de investimento em infraestrutura do governo federal foi lançado, em 2007. A
maior parte deles envolvia questões ambientais, como no caso dos bagres do rio
Madeira, que atrasaram de forma considerável o início das obras das duas
maiores usinas hidrelétricas em construção no País, Jirau e Santo Antônio. Na
época, técnicos do Ibama se recusaram a conceder a licença ambiental para o
empreendimento porque não estava claro como os peixes conseguiriam atravessar
as turbinas das usinas para concluir seu ciclo de reprodução. O imbróglio
arrastou-se por meses e fez o então presidente Lula acusar os bagres do Madeira
de emperrar o desenvolvimento do País. A crise acabou desaguando na saída da
então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, do governo e, posteriormente, do
próprio PT.

Passada a fase das complicações
ligadas ao meio ambiente, as obras do PAC enfrentam agora um problema que
parece mais sério e mais complexo do que a vida sexual dos bagres. Em menos de
dez dias quase 80 mil operários se rebelaram contra as condições de trabalho e
simplesmente decidiram suspender as atividades nos cinco principais canteiros
de obras do PAC. Ao longo da última semana, obras como a construção das usinas
de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, o complexo termoelétrico de Pecém, no
Ceará, a refinaria Abreu e Lima e o complexo portuário de Suape, ambos em
Pernambuco, ficaram paralisadas. Na quinta-feira 24, parte dos trabalhadores
começou a retomar as atividades, mas o clima permanecia tenso nos canteiros de
obras.

Foi exatamente às margens do mesmo
rio Madeira, que abriga os bagres que tanto irritaram Lula, que o problema
eclodiu na terça-feira 15. Enfurecidos por conta do que parecia ser apenas uma
briga entre um operário e um motorista de uma das empreiteiras que estão
construindo a usina de Jirau, os trabalhadores iniciaram uma revolta violenta.
Pelo menos 300 operários atearam fogo nos alojamentos, escritórios e caixas
eletrônicos do canteiro de obras da Camargo Corrêa. A situação só voltou à
relativa normalidade depois que 500 homens da Força Nacional foram enviados ao
local. Rapidamente a revolta espalhou-se por outras obras e culminou com a
maciça paralisação da semana passada.

Em entrevista exclusiva à revista
ISTOÉDinheiro, o presidente da construtora Camargo Corrêa, Antonio Miguel
Marques, afirmou não acreditar que a revolta em Jirau tenha ocorrido por
descontentamento com as condições de trabalho. Ele vê três hipóteses para o
quebra-quebra e os incêndios: banditismo, briga sindical e insatisfação com o
aumento da segurança no acampamento. "Foram atos de vândalos. Eu não
concebo que uma briga entre um motorista de ônibus e um empregado embriagado
possa motivar a queima de mais de 40 ônibus. Não se faz isso com palito de
fósforo e isqueiro, é preciso ter combustível preparado para isso."
Marques acredita na hipótese de banditismo porque, no mesmo momento em que
ocorreram os tumultos, houve dois assaltos aos postos bancários nos
acampamentos nos dois lados do rio Madeira.

A revolta de Jirau assustou o
governo que, distante das obras e exigindo prazos enxutos para a conclusão dos
projetos, não estava atento à insatisfação crescente nos canteiros de obras.
"Há dois anos a CUT avisava que poderia haver problemas, queríamos contrapartidas
sociais para que essas obras fossem realizadas", diz o presidente da
Central Única dos Trabalhadores, Artur Henrique, que participou de uma reunião
convocada às pressas pelo Planalto com o secretário-geral da Presidência,
Gilberto Carvalho, na quarta-feira 23. Com ele estava o deputado Paulo Pereira
da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical. Acuado pela situação, o
governo concordou com os sindicalistas. "Em obras em que trabalhadores
ficam confinados, se não houver respeito ao pagamento de horas extras, se
houver truculência das chefias e dos seguranças, se não houver condições de
higiene e alimentação dignas, a eclosão da violência é algo inevitável",
disse Gilberto Carvalho, que marcou um novo encontro com as centrais na
terça-feira 29.

Ainda não está claro o que motivou
de fato a revolta em Jirau. Para os sindicalistas, a razão está na
terceirização constante da mão de obra e a falta de respeito às condições de
trabalho. "As empresas não cumprem os mais elementares direitos trabalhistas",
afirma Adalberto Galvão, vice-presidente da Confederação Nacional dos
Trabalhadores da Indústria da Construção Pesada. Já Marques, da Camargo Corrêa,
sustenta que os motivos não poderiam ser esses. "Jirau é uma obra com
nível atipicamente baixo de terceirização. É uma obra de grande
responsabilidade para ser executada em prazo exíguo, então predominam os
recursos próprios." Cabe agora ao governo investigar e fiscalizar para que
novos problemas como o das últimas semanas não atrasem ainda mais as obras do PAC.


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