
AGÊNCIA CBIC
Deu na mídia: “Queremos transformar dependência em independência na construção civil”, diz presidente da CBIC

A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) oficializou sua adesão ao programa Acredita no Primeiro Passo, que capacita inscritos no Cadastro Único para o mercado de trabalho, na quinta-feira (20), durante o evento Summit CBIC Norte e Nordeste, realizado em Fortaleza (CE). Em entrevista à repórter Irna Cavalcante, na rádio O Povo CBN, o presidente da CBIC, Renato Correia, explica como essa parceria pode contribuir para reduzir o déficit de profissionais no setor e comenta os desafios da construção civil diante da alta dos juros e da reforma tributária.
Além da capacitação profissional, Renato Correia também discute os desafios do setor diante da alta da taxa Selic, que impacta o financiamento imobiliário e pode reduzir as vendas na classe média em até 20%. Ele destaca ainda o papel essencial do FGTS no financiamento habitacional, defendendo que o fundo continue sendo direcionado para moradia e infraestrutura, sem desvios para saques extraordinários. Outro ponto relevante abordado na entrevista é o crescimento da construção civil no Nordeste, impulsionado por ajustes nas taxas do Minha Casa Minha Vida e novos investimentos em saneamento, energia renovável e transporte, consolidando a região como um polo estratégico para o setor.
Confira a transcrição da entrevista, abaixo, ou clique aqui e assista à íntegra, em vídeo.
CBN: Como vai funcionar a parceria da CBIC com o programa Acredita no Primeiro Passo?
Renato Correia: Representamos 98 sindicatos da construção civil em todos os estados, empregando quase 3 milhões de trabalhadores. O setor tem uma grande carência de mão de obra, agravada pela digitalização e os efeitos da pandemia. Buscamos o Ministério do Desenvolvimento Social e o Ministério do Trabalho para criar uma ponte entre o Cadastro Único, que reúne pessoas em situação de vulnerabilidade, e as oportunidades do setor. O objetivo é transformar dependência em independência, permitindo que esses trabalhadores ingressem no mercado com suporte adequado.
CBN: Qual é o tamanho do déficit de profissionais na construção hoje?
Renato Correia: Ainda não temos um levantamento exato, mas para dar uma ideia, o setor contratou em média 200 mil pessoas por ano nos últimos quatro anos. Como o ciclo de crescimento continua, estimamos que haja cerca de 200 mil vagas a serem preenchidas ainda em 2025.
CBN: Quais funções têm maior demanda?
Renato Correia: O maior número de contratações acontece na base, nos cargos de ajudante. Mas isso é positivo, porque dali podem surgir pedreiros, carpinteiros, mestres de obras. O Senai está nos ajudando a estruturar treinamentos padronizados para potencializar essas carreiras dentro do setor.
CBN: E qual é a média salarial do setor?
Renato Correia: Até o final de 2023, a construção civil era o terceiro setor com melhor salário de entrada. Hoje já superamos a tecnologia da informação e ocupamos a segunda posição, com um salário médio inicial entre R$ 2.900 e R$ 3.000.
CBN: A entrada no mercado implica a perda automática do Bolsa Família?
Renato Correia: Não. Existe uma faixa de transição. Famílias com renda per capita de até meio salário mínimo continuam recebendo o benefício. O corte só acontece quando a renda total da família ultrapassa R$ 3.750, garantindo que a pessoa saia da linha da pobreza de forma sustentável.
CBN: Como a alta da taxa Selic impacta o setor?
Renato Correia: O aumento para 14,25% ao ano nos preocupa, especialmente porque a projeção é que chegue a 15%. A construção civil trabalha com prazos longos e depende de crédito, então juros altos afetam diretamente os financiamentos. No Minha Casa Minha Vida, os juros são fixos, variando entre 4% e 8,76%, então o impacto será menor. Já para a classe média, que depende da poupança, a alta da Selic reduz a capacidade de compra e pode levar a uma retração de até 20% nas vendas.
CBN: E a infraestrutura?
Renato Correia: O Brasil começou a olhar para a infraestrutura de forma mais estratégica. Em 2024, foram investidos R$ 264 bilhões, sendo R$ 200 bilhões da iniciativa privada. A tendência é de crescimento, com contratos mais bem estruturados e ajustáveis à realidade econômica.
CBN: Como está o setor no Nordeste?
Renato Correia: O Nordeste foi a região mais beneficiada com a revisão das taxas do FGTS e com a alocação de recursos do Minha Casa Minha Vida. Isso impulsionou a habitação social e aumentou o volume de contratações. Na infraestrutura, vemos investimentos importantes em saneamento, energia renovável e transporte, tornando a região um novo polo de crescimento.
CBN: E o novo crédito consignado do FGTS, qual a avaliação?
Renato Correia: O FGTS é um patrimônio do trabalhador e um instrumento essencial para habitação e saneamento. Somos contra saques extraordinários que desviam esses recursos. O crédito consignado pode ser uma alternativa viável, desde que substitua o saque-aniversário, que prejudica o trabalhador com juros altos.
CBN: O que esperar do Minha Casa Minha Vida em 2025?
Renato Correia: O orçamento se mantém robusto, com R$ 126 bilhões para financiamentos. A novidade é a alocação de parte dos recursos do pré-sal para habitação. Isso pode ajudar a ampliar o acesso à moradia, especialmente para a classe média que hoje enfrenta dificuldades com a alta dos juros.
CBN: Como avalia o programa Entrada Moradia do Ceará?
Renato Correia: É um acerto do governo estadual. Muitos brasileiros não têm capacidade de poupança para a entrada do imóvel. Esse subsídio ajuda a viabilizar a compra da casa própria e impulsiona o mercado habitacional.