AGÊNCIA CBIC
Sustentabilidade passa a ser também questão de competitividade e acesso a capital, aponta Nilson Sarti
“O futuro da construção será cada vez mais baseado em produtividade, industrialização, inovação, eficiência no uso de recursos, baixo carbono e resiliência.” A avaliação é de Nilson Sarti, Vice-Presidente de Meio ambiente e Sustentabilidade da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Em entrevista ao CBIC Hoje, ele fala sobre os desafios da nova gestão de 2026/2029 e a relação entre sustentabilidade, competitividade e acesso a capital. Também aborda o avanço da economia circular e as novas soluções e tecnologias que podem transformar a construção brasileira.
Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV), Sarti é diretor da Akasa Incorporadora, conselheiro e ex-presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia (ADEMI-BA).
À frente da Vice-Presidência de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Sarti terá entre as prioridades para os próximos três anos ampliar a preparação do setor para uma realidade em que critérios ambientais e climáticos terão cada vez mais peso na oferta de recursos. Nesse cenário, a agenda de finanças verdes e a Taxonomia Sustentável Brasileira ganham espaço, assim como temas como descarbonização, eficiência energética e hídrica, economia circular, industrialização e resiliência das cidades.
Quais os principais desafios do setor da construção para os próximos três anos?
O setor da construção terá pela frente o desafio de aumentar produtividade e competitividade ao mesmo tempo em que responde às mudanças climáticas e às novas exigências de sustentabilidade. Precisamos avançar na descarbonização, eficiência energética e hídrica, gestão de resíduos, adaptação das cidades aos eventos climáticos extremos e industrialização dos processos construtivos. Outro ponto fundamental é transformar sustentabilidade em valor econômico e oportunidade de negócio. Isso passa pelo acesso a financiamento sustentável, pela qualificação da mão de obra, inovação tecnológica e pela criação de um ambiente regulatório que estimule soluções de baixo carbono sem aumentar desnecessariamente os custos e a complexidade para as empresas.
A construção também precisa olhar para a resiliência das cidades e para as condições de vida e trabalho das pessoas, porque os impactos climáticos já afetam infraestrutura, habitação, mobilidade, disponibilidade de recursos hídricos e produtividade dos trabalhadores.
Diante deste cenário, quais as prioridades da CMA nesta nova gestão?
Uma das nossas principais prioridades será preparar o setor da construção para uma nova realidade de financiamento, em que critérios ambientais e climáticos terão cada vez mais peso na alocação de recursos. Por isso, a agenda de finanças verdes e da Taxonomia Sustentável Brasileira será estratégica para a CMA. Precisamos familiarizar nossas empresas, nossas entidades e nossos profissionais com esses conceitos. A Taxonomia não deve ser vista apenas como uma agenda regulatória, mas como uma ferramenta que poderá orientar investimentos e ampliar o acesso do setor a recursos destinados a atividades sustentáveis.
Nosso papel será traduzir essa agenda para a realidade das empresas da construção, mostrando o que muda, quais são os critérios, quais informações serão necessárias e como as empresas podem se preparar para demonstrar sua aderência. Queremos orientar o setor para que ele não seja apenas um observador dessa transformação, mas esteja preparado para acessar financiamento verde, estruturar projetos sustentáveis e aproveitar novas oportunidades de investimento.
Isso se conecta diretamente ao nosso projeto de Finanças Sustentáveis para a Construção, que busca aproximar o setor dos instrumentos financeiros e criar condições para que projetos de baixo carbono, eficiência energética, eficiência hídrica e resiliência possam sair do papel.
Como a construção pode ampliar o uso de fontes de energia renováveis e de soluções que reduzam as emissões de carbono ao longo da cadeia produtiva?
Existe uma relação muito direta entre descarbonização e acesso a capital. A empresa que mede suas emissões, melhora sua eficiência energética e hídrica, utiliza fontes renováveis e demonstra seus resultados estará mais preparada para atender às novas exigências do mercado financeiro. É justamente por isso que precisamos familiarizar o setor com a Taxonomia Sustentável Brasileira e com os mecanismos de finanças verdes. Não podemos esperar que o mercado financeiro avance e somente depois tentar adaptar nossas empresas.
Precisamos preparar o setor agora: entender os critérios, organizar dados, desenvolver indicadores, qualificar projetos e demonstrar resultados ambientais. Isso será cada vez mais importante para acessar linhas de crédito, investimentos e outros instrumentos financeiros vinculados à sustentabilidade.
A CMA tem um papel importante nesse processo: informar, capacitar e orientar. Queremos que uma empresa de construção saiba não apenas que existe uma oportunidade de financiamento verde, mas também o que precisa fazer para estar preparada para acessa-la. A sustentabilidade, portanto, deixa de ser apenas uma questão ambiental. Ela passa a ser também uma questão de competitividade, acesso a capital e futuro dos negócios.
A economia circular tem ganhado espaço na construção, com o reaproveitamento de materiais e a redução de resíduos. Quais são os principais desafios para ampliar a adoção dessas práticas no setor?
O primeiro desafio é mudar a lógica linear da construção: extrair, produzir, utilizar e descartar. Precisamos avançar para uma lógica em que materiais e componentes sejam pensados desde o projeto para ter maior durabilidade, possibilidade de manutenção, reutilização e reciclagem. Um segundo desafio é econômico e regulatório. Ainda existem barreiras relacionadas à padronização, certificação, rastreabilidade e segurança técnica dos materiais reutilizados. Também precisamos desenvolver mercados que deem escala para esses produtos juntamente com a nossa cadeira de fornecedores.
Outro ponto é o projeto. A economia circular começa muito antes da obra, começa na concepção da edificação. Projetar para desmontagem, manutenção, adaptação e reutilização pode reduzir significativamente o desperdício e prolongar a vida útil dos ativos. E existe uma grande oportunidade na industrialização e na construção modular, porque esses processos permitem maior controle sobre materiais, redução de perdas e melhor planejamento da produção.
Quais soluções e tendências em materiais e tecnologias sustentáveis têm se destacado no setor da construção?
Estamos vivendo uma transformação importante. Entre as tendências, eu destacaria os novos materiais de menor pegada de carbono, sistemas construtivos industrializados, construção em madeira engenheirada, materiais reciclados e recicláveis, tecnologias para eficiência energética e hídrica e soluções digitais para gestão ambiental. A madeira engenheirada, por exemplo, vem ganhando espaço como alternativa para determinados sistemas construtivos, especialmente quando associada a manejo responsável e adequada avaliação do ciclo de vida.
Também vemos uma evolução muito grande na utilização de BIM, inteligência artificial, sensores, digital twins e sistemas de gestão de energia e água, além de iniciativas voltadas às Soluções Baseadas na Natureza, as SBNs. Essas tecnologias permitem tomar decisões melhores desde o projeto até a operação da edificação. Mas eu destacaria uma tendência ainda mais importante: a sustentabilidade está deixando de ser um atributo isolado e passando a fazer parte da estratégia do negócio.
O futuro da construção será cada vez mais baseado em produtividade, industrialização, inovação, eficiência no uso de recursos, baixo carbono e resiliência. O papel da CMA/CBIC é ajudar o setor a transformar essas tendências em soluções práticas, economicamente viáveis e aplicáveis à realidade das empresas brasileiras.





















































































