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16/03/2018

2018: o ano da implantação mundial do BIM

“Para mim, trabalhar é prazer”, assegurou o consultor e pesquisador Bilal Succar, uma das maiores autoridades em Building Information Modeling (BIM) em nível mundial, quando questionado se possuía outras paixões. “Mas a arte nunca saiu do meu sistema”, acabou por confessar. Design de interiores, Belas Artes, administração de negócios, tecnologia da informação (TI), mestrado em Arquitetura e gestão, PhD em avaliação de performance e tecnologia em construção – este é o mix de áreas que formou o empresário que hoje roda o mundo com a “Iniciativa de Excelência BIM”. Inglaterra, Hong Kong, Estados Unidos, Catar e Brasil (em sua segunda visita) são algumas das nações por onde passou recentemente.

Libanês da capital Beirute, Succar vive, há 15 anos, em Melbourne. A maravilhosa Austrália dos filmes concretizou-se como o destino onde encontraria seu irmão e muitas oportunidades de educação. “Eu queria continuar meus estudos. Após a graduação, queria me especializar”. Foi lá também onde Succar desenvolveu seu trabalho. “Eu estava trabalhando em uma empresa de Arquitetura, como gerente do conselho consultivo de mudanças em TI, quando o BIM começou a aparecer”, lembra. Após realizar pesquisas de caráter pessoal, Succar foi convencido a seguir carreira acadêmica. “Levei nove anos para concluir meu PhD, foi um processo muito longo”, mas que hoje rende frutos e traz reconhecimento global.

Em entrevista exclusiva ao CBIC Mais, Bilal Succar decretou que 2018 é o ano da implantação mundial do BIM. Ele voltou ao Brasil para participar do Seminário BIM: oportunidade para inovar a indústria da construção e aumentar a transparência das contas públicas, promovido pela CBIC em correalização com o Senai Nacional na capital federal, em 15/03. Já neste sábado, 17/03, o especialista parte em sua longa jornada para Melbourne, não sem antes conhecer a arquitetura de Niemeyer e “todos esses prédios lindos que vocês veem pela janela”. Succar, que faz publicações com ilustrações próprias, seguirá propagando a Arte que é a construção com a inovação BIM.

Sua principal linha de estudo aborda os diferentes níveis de capacitação e maturidade em BIM. Como se dá esse processo de implantação BIM que você propaga?

Meu negócio tem um lado lucrativo, que é a minha consultoria; e tem outro, realmente crescente, sem fins lucrativos. Pela lado lucrativo, vou até as organizações avaliando-as, fornecendo relatórios e ajudando-as a desenvolver estratégias. Avaliamos suas próprias habilidades para melhorias. Pela perspectiva sem lucros, fornecemos ferramentas gratuitas para as pessoas usarem a fim de desenvolver seus próprios métodos de avaliação e processos. Nossa missão, a qual chamamos “Iniciativa de Excelência BIM”, é habilitar organizações e responsáveis por formular políticas públicas – qualquer um, na verdade – para começarem ou continuarem sua jornada em direção ao BIM, utilizando conhecimento baseado em pesquisa. Tornamos as coisas mais simplificadas. Temos um projeto, por exemplo, chamado Dicionário BIM, onde as pessoas podem acessar e buscar por 700 termos, atualmente. O glossário tem sido traduzido para vários idiomas – 14, no momento –, incluindo português. Todas essas coisas que foram compiladas ao longo dos anos, aos poucos tem mudado de uma perspectiva lucrativa para uma não lucrativa. E essa mudança não tem sido feita só por mim. Tem muitas pessoas – incluindo realmente grandes pesquisadores aqui do Brasil, da Alemanha e de diferentes países – que tornam a transição de adoção do BIM mais fácil e estruturada.

É sua a primeira metodologia estruturada em pesquisas, no mundo, a fazer o diagnóstico de maturidade BIM. Qual é a metodologia empregada nos países?

Antes, não havia informações suficientes para nos dizer o que os países estavam fazendo e como eles podiam melhorar. E mesmo até hoje, não é suficiente. Então iniciamos esse projeto para ver: O que os países estão fazendo? Como podemos comparar os esforços entre eles? Tentamos fazer uma espécie de fotografia de determinado momento, como fizemos com o Brasil alguns anos atrás, e depois outra para saber como as coisas evoluíram. Também desenvolvemos modelos, ferramentas, para as pessoas usarem para fazer duas coisas: 1- avaliar a implantação do BIM, saber o quão longe foram ou como está sua estratégia; e 2- desenvolver novas coisas, como um roteiro de implantação. Fornecemos informações, como quais são os ingredientes necessários para esse roteiro. Não damos roteiros prontos. Não viemos aqui e dizemos: “Este é o roteiro para o Brasil”, ou para o Chile, ou para a Espanha. Não fazemos isso, porque acreditamos que não é a abordagem apropriada. Cada país tem suas próprias necessidades, muito específicas. O que fazemos é fornecer os itens que são comuns. Se qualquer país quiser seguir adiante com essa inovação, ele precisa ter boa infraestrutura tecnológica, focar em educação, etc. Compilamos essa informação e levamos aos responsáveis por formular as políticas públicas: “Essas são as coisas que precisam desenvolver. Se você quiser, esse é um modelo que pode ser utilizado”. E então paramos. A partir daí, cabe a esses responsáveis, já que são eles que conhecem o próprio país, suas diferentes regiões e necessidades.

O evento da CBIC teve como foco apresentar como o BIM inova a indústria da construção e aumenta a transparência das compras públicas. Quais são as principais vantagens do BIM e qual é a importância dessa inovação?

O BIM tem muitos, muitos benefícios. O principal deles é reduzir o desperdício, de inúmeras maneiras. Com o BIM, você simula a construção antes de fazê-la fisicamente. Se você consegue ver como as coisas devem ou não ser construídas, e quando as coisas devem ser entregues no local da obra, então você reduz o desperdício e reduz os esforços ao longo do tempo, diminuindo a quantidade de etapas necessárias para entregar uma obra. Independente da sua função –projetista, construtor ou proprietário –, há benefícios. Mesmo para quem está sozinho, sem colaboradores. Mas, uma vez que todos colaboram e usam essa inovação juntos, os benefícios se multiplicam e alcançam todo o setor. Há vários deles. Podemos citar: aumentar a transparência, o que ajuda a evitar a corrupção; reduzir a quantidade de esforços para desenvolver edificações bastante complexas; fazer os construtores entrarem no processo mais cedo, em vez de esperar os projetistas terminarem sua parte primeiro, para depois fornecerem o projeto aos empreiteiros e depois aos operários, como acontece hoje. Então o BIM permite que todas as partes trabalhem juntas e entrem no processo mais cedo, economizando bastante tempo na construção e reduzindo o desperdício.

O senhor tem acompanhado a propagação da inovação pelo mundo e tem sido convidado a dar consultorias por vários governos que têm interesse na exigência do BIM. Qual o panorama da implantação do BIM no mundo hoje?

Nós chamamos este de “o ano da implantação mundial do BIM”. Houve pioneiros na adoção do BIM antes, nos últimos dez anos. Os países escandinavos foram os primeiros a se mexer e ainda caminham muito bem – embora não divulguem muito o que fazem, eles estão muito à frente. Já os Estados Unidos chegaram a liderar a implantação, mas o Reino Unido tomou as rédeas. Atualmente, há diferentes países pelo mundo nesse processo. Alemanha e França estão se movimentando. China está se movimentando rapidamente. Até mesmo países sobre os quais você pode se perguntar: “Como estão pensando em BIM agora, enquanto ainda precisam alimentar sua população?” –, eles estão pensando e desenvolvendo estratégias e roteiros para adoção dessa inovação. Isto porque eles veem os benefícios e os potenciais benefícios, como redução da corrupção e aumento da produtividade. Há inúmeros países indo nessa direção.

Em sua percepção, em qual nível de maturidade o Brasil se encontra atualmente?

Por meio das pesquisas que temos feito nos últimos três ou quatro anos, identificamos certos requisitos que cada país precisa ter a fim de que o BIM tenha sucesso e possa ser adotado amplamente. Não posso responder em qual nível de maturidade o Brasil se encontra no momento porque não fizemos as devidas análises. Acompanhamos o Brasil em alguns poucos pequenos estudos. Fizemos uma avaliação, dois ou três anos atrás, para capturar informações e descobrimos que o Brasil estava um pouco atrás da curva, quando comparado a outros países. Mas agora aqui, sem fazer avaliações, anos após esse estudo, podemos ver que várias das coisas que faltavam começaram a aparecer. O desenvolvimento de estratégias e as discussões, até mesmo de jovens pesquisadores, mudaram muito.

Qual é sua perspectiva, em relação à implantação e à exigência do BIM no Brasil, nos próximos anos?

Baseado nas discussões que tive nos últimos dias, e tenho acompanhado pesquisas realmente boas que têm saído do Brasil, como algumas da USP e da Unicamp, o Brasil tem muito potencial para ir adiante. A vantagem de não ser um dos primeiros países a adotar o BIM é poder olhar para outros e ver onde tiveram sucesso ou não. Logo, baseado no que ouvi, nos investimentos que vi serem feitos, nesse evento da CBIC e em outras coisas, acredito que há muito potencial, não apenas para o Brasil evoluir, mas para evoluir com rapidez, e para aprender com todas as coisas que os outros fizeram. Vejo, a partir de tudo isso, que se eu voltar em dois ou três anos, vou estar novamente surpreso com o quanto a implantação caminhou tão bem.

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