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26/03/2020

Entrevista: Gestão compartilhada aprimora as relações contratuais

A gestão compartilhada, processo recomendado para a implantação de projetos de grande complexidade, vem efetivamente contribuindo para melhorar o desempenho e o resultado dos projetos de obras industriais e corporativas em escala global.

No novo modelo, o principal objetivo dos envolvidos – contratantes, contratadas, montadoras, gerenciadoras e projetistas – é o sucesso do projeto, o que requer uma cultura baseada na confiança entre os stakeholders e o exercício constante de uma negociação cooperativa.

A gestão compartilhada recomenda contratos com critérios bem definidos e regras para soluções de problemas pré-estabelecidos (fora de escopo, custos, rateio de despesas, bonificações, governança, entre outros), que evitam onerar projetos e aumentar prazos de execução, prejuízos para as partes e possíveis disputas jurídicas.

“Há um consenso entre as empresas e os próprios contratantes de que a gestão compartilhada, que mais que uma metodologia é, na realidade, uma cultura, poderá ajudar a elevar muito o nível de sucesso dos projetos implantados”, menciona o presidente da COIC/CBIC, Ilso José de Oliveira.

Em função dos poucos dados estatísticos disponíveis para a tomada de decisões, em 2019 a Comissão de Obras Industriais e Corporativas (COIC) da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) realizou uma pesquisa sobre Gestão Compartilhada nas Empresas de Obras Industriais e Corporativas. O resultado foi a geração de dados que poderão ser utilizados como base para a formatação de orientações para a aplicação do modelo de gestão nas empresas do setor. Dividida em sete etapas, uma delas foi dirigida para avaliar as relações contratuais.

“A COIC está buscando uma forma eficaz de avaliar tanto a opinião das empresas quanto a quantidade de empresas que praticam a cultura da gestão compartilhada nas obras e em que grau para fazer uma correlação entre a prática efetiva e o sucesso dos projetos implantados”, ressalta Ilso de Oliveira.

A ideia é ampliar a base de dados da pesquisa para, em função das repostas, traçar um plano de ação para que as empresas de obras industriais e corporativas se conscientizem mais sobre a importância da gestão compartilhada e passem a praticá-la.

O gerente de Desenvolvimento de Negócios na Tractebel Engie, Ricardo Fabel, participou da pesquisa e em entrevista exclusiva ao CBIC Hoje+ comenta como seus indicativos refletem a realidade do mercado. Confira a seguir:  

 

CBIC Hoje+: O que muda para o segmento de obras industriais e corporativas após a publicação do relatório resultante do levantamento sobre Gestão Compartilhada nas Empresas de Obras Industriais e Corporativas realizado pela COIC/CBIC?

Ricardo Fabel: O relatório do Levantamento dos Indicadores de Gestão Compartilhada propicia excelentes temas para serem discutidos. Entretanto, apenas os resultados não são suficientes para uma mudança de contexto, mesmo por que temos portes diferentes de empresas e de contratos. A mudança ocorrerá a partir de vários esforços da CBIC, por meio da COIC, da divulgação dos temas abordados, dos respectivos resultados obtidos pela amostragem realizada e pela maior participação dos clientes, visando a melhoria na implantação de projetos.

 

C.H.+: Uma das questões da pesquisa revelou que, para a maioria das empresas, o tempo disponibilizado para a elaboração das propostas não condiz com a qualidade esperada. Ainda assim, a maioria dos participantes retornou que esse ponto era de extrema importância. Para o senhor, existe um tempo adequado a ser adotado como padrão?

R.F.: O prazo de elaboração de propostas é de extrema relevância para a qualidade das mesmas, o que implica forma significativa na execução do projeto ou obra em termos de entendimento de escopo, cronograma e relações contratuais. Não se pode estabelecer um prazo padrão, haja vista que o prazo depende de fatores, tais como o tamanho do projeto ou obra, a fase a ser desenvolvida, as informações disponíveis, etc. Entretanto, é necessário entender que um prazo adequado com as sequências de entendimento do escopo, visita técnica, esclarecimentos técnicos e comerciais, análise da minuta contratual, eventuais necessidades de cotações com terceiros, entre outros fatores que influenciam na elaboração da proposta, deve ser dimensionado de forma a possibilitar um plano de trabalho bem realizado e uma proposta comercial aderente, o que gerará valor para o projeto na fase de execução.

 

C.H.+: Outro ponto revelado pelo relatório mostrou que a prática de sobreposição de responsabilidades e exigências desproporcionais nos contratos não é prática incomum. Qual a forma de evitar esse tipo de prática nos contratos?

R.F.: Cada empresa possui suas regras de compliance e seus limites aceitáveis de responsabilidades.  Esses requisitos são confrontados com as respectivas exigências dos clientes refletidas nas minutas. Assim, a forma de se evitar está ligada com a discussão da minuta contratual pelas partes e a aceitação dos respectivos clientes com base em argumentos e parâmetros estabelecidos.

 

C.H.+: No levantamento foi requisitado que as empresas selecionassem, dentro de uma lista, qual o tipo de contrato normalmente é firmado em seus projetos. Para 50% das empresas, o modelo é por ‘empreitada global’; para quase 40%, o modelo foi ‘empreitada por preço unitário’ e, para pouco mais de 10%, o modelo foi ‘empreitada integral (turn-key)’. Qual o motivo dessas preferências? Existe um modelo melhor que o outro?

R.F.: Não existe um modelo melhor ou pior, pois isso depende da fase do projeto ou da obra e, consequentemente, do conhecimento do escopo. A empreitada por preço global deve ser adotada quando for possível definir previamente no projeto, com boa margem de precisão, as quantidades dos serviços a serem executados, visando a equidade contratual. Em contrapartida, a empreitada por preço unitário deve ser preferida para escopos e fases que, por sua natureza, não permitam a precisa indicação dos quantitativos orçamentários e, portanto, serão medidos por tarifas. Contratos de gerenciamento de obra são muito usuais nessa modalidade. Já o modelo Turn Key recebeu um percentual baixo na pesquisa, haja vista que não é usualmente praticado no Brasil, pelo perfil dos clientes, pois é uma modalidade que centraliza a responsabilidade na contratada, mas pode ser relevante em termos de rapidez e sucesso do empreendimento e deve ser uma prática mais adotada como estratégia win-win, onde todos ganham pelo sucesso do negócio. É um assunto relevante a ser discutido nas próximas etapas desse tema.

 

C.H.+: Na pesquisa foi questionado se, nos projetos da empresa, as reuniões de acompanhamento, ou follow up, são comuns e se as empresas consideram essa prática importante para a performance do projeto. Apesar de todos terem respondido que consideravam algo importante, para mais de 30% dos entrevistados essa prática inexiste. Na sua avaliação, por que algo considerado tão importante não é comumente utilizado?

R.F.:  Esse é um exemplo que evidencia que muitas práticas que agregam valor nos projetos são deixadas de lado visando redução de custos e aumento da competitividade. Quando os clientes entenderem que a melhor proposta nem sempre é a de menor preço, mas sim com um plano consistente de trabalho e uma proposta comercial respectivamente adequada, a inclusão, por exemplo, do tema em questão – reuniões de acompanhamento de projeto –, refletirá na performance dos projetos, no entendimento das necessidades, acompanhamento do cronograma, etc e a chance de sucesso será maior!

 

C.H.+: Para o senhor, os pontos relativos às relações contratuais “conversam” com a utilização do método gerencial da Gestão Compartilhada? Como?

R.F.: O método de gestão compartilhada exige não só o comprometimento das partes envolvidas no empreendimento, mas uma relação de parceria visando performance e o sucesso. Assim, os temas relativos às relações contratuais possuem conexão com a gestão compartilhada e trazem à tona as necessidades que precisam ser discutidas e identificadas, os pontos de melhorias ou desenvolvimentos necessários e a reflexão por parte das empresas contratadas e contratantes relativa à necessidade de valorização da engenharia.

 

C.H.+: A COIC/CBIC vem rodando o Brasil com o seu evento ‘Roadshow: formação de preços e relações contratuais’. Essas temáticas “conversam” com a Gestão Compartilhada? Como?

R.F.: A iniciativa da COIC de criar o ‘Roadshow de Formação de Preços e Relações Contratuais’ em prol da valorização da engenharia é preponderante para discutir os temas abordados com os representantes de construtoras, engenharia, gerenciadoras e clientes, envolvendo um seleto grupo de  profissionais que, com suas ideias e contribuições, poderão abordar os temas elencados e identificar os caminhos para o uso da  gestão compartilhada no setor de obras industriais como solução dos gargalos já identificados.

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