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26/04/2019

Artigo: Paris IV – Paris-Brasília

Dionyzio Antonio Martins Klavdianos é vice-presidente de Área da CBIC e presidente da Comissão de Materiais, Tecnologia, Qualidade e Produtividade (Comat)

 

 

 

A sala do Centro Técnico e Científico da Construção (CSTB) da França,Paris III- Nossa Notre Dame, reservada à interação e simulação virtual leva o nome do arquiteto Oscar Niemeyer.

Fosse falar do potencial do ambiente gastaria um post inteiro, para se ter uma ideia, Paris e arredores estão lançadas em BIM no espaço e a partir de uma tela de dimensões cinematográficas o interessado lança seu projeto, verifica interferências , faz simulações, interage…

Há outras salas lá também, dedicadas a temas distintos, de ponta, cada uma batizada com o nome de um personagem de reconhecido valor para a ciência e tecnologia, uma leva o nome do engenheiro francês  Eugene Freyssinet, um dos precursores do concreto protendido .

Sintomático que tenham escolhido o nome do arquiteto brasileiro para batizar o espaço futurista, pois quando fazíamos o tour pela centro de Paris Paris II- Arrondissements, e nos contavam do trabalho do urbanista Georges Haussmam na refundação da cidade, dos espaços abertos, da mistura social, de cada quadra com seus serviços, de tudo próximo…não tinha como não lembrar na hora da dupla Oscar Niemeyer e Lucio Costa e da Brasília que criaram.

O arquiteto da SEMAPA- ZAC Rive Gauche, M. Ernek, que nos apresentou a Operação Paris Rive Gauche, uma transformação radical no 13º distrito da cidade, ver post  Paris II- Arrondissements, não faz pouco do trabalho desenvolvido pela SEMAPA, uma sociedade de economia mista criada pela prefeitura de Paris em 1985 com o objetivo de cuidar do planejamento urbano da cidade, “Trata-se da maior intervenção no traçado urbano da cidade desde Haussmam”, possível graças a lei federal que em 1981 deferiu amplos poderes aos urbanistas para desempenharem tal trabalho.

Desde o ano de 1991, independentemente de quem assuma o governo, a SEMAPA compra terrenos no 13º distrito, cuida da infraestrutura , estabelece os parâmetros urbanísticos e de obras e os revende para a iniciativa privada. O projeto tem dois objetivos primordiais; ligar o distrito ao Rio Sena, para tanto, todas as linhas de trem de carga da Gare de Austerlitz foram desativadas e os terrenos incorporados à transformação, e trazer emprego para o distrito, uma política de contrapeso ao desenvolvimento, e consequente  empreendedorismo imobiliário, natural que ocorre na região de La Defense, centro financeiro do país, ao término do processo, que já se encontra 60% concluso,  45 mil empregos estarão criados de forma permanente e 30 mil estudantes e 25 mil pessoas estarão residindo no local

Por lei federal 20% das moradias de cada cidade francesa deve ser de interesse social, nos novos bairros do distrito este aspecto é levado em conta, há um mix destas, com outras destinadas a estudantes,  comércio e para compradores de nível de renda mais elevado (vendidas a cerca de 9 mil Euros por m²). Todos , sem exceção, prédios que chamam a atenção pelo design arrojado.

Dois exemplos da radicalização; a mudança da Biblioteca Nacional da França e do campus VII da Universidade de Paris do centro para o distrito, a primeira para quatro espigões modernos inaugurada ainda na década de 1990 e a segunda para um antigo moinho desativado.

Como mencionado, quando a SEMAPA comercializa o terreno já o faz com a infraestrutura pronta . As linhas de carga foram desativadas , mas a de passageiros não, então os prédios que são construídos sobre elas são assentados sobre fundação e bases entregues juntos com a infraestrutura.

No bairro de Rungis, um dos visitados, a linha de trem de passageiros, desativada atualmente, foi preservada para que não ocorra interferências na eventualidade de ser retomado o modal. Chama a atenção ver os prédios já prontos com túneis no térreo ou subsolo à espera do trem do futuro .

Lá no início do post contei que lembrei de Brasília ao escutar a história da refundação  de Paris na segunda metade do século XIX.  Desde os primórdios a transformação urbanística da cidade  foi privilegiar a mobilidade e o transporte público , notadamente o metrô  que começou a funcionar apenas em 1900,  30 anos depois do trabalho de Hausmam ter sido concluído. Uma pena que Brasília não tenha contado com esta sorte, nem de tantas outras …

P.S – referências mais precisas deste post, notadamente nome de pessoas e locais, me foram passadas pela arquiteta Raquel Palhares , diretora da Arq Tours , agência que coordenou a missão técnica da CBIC a Paris.

A premiação é uma iniciativa da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), em correalização com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai Nacional), e conta com o patrocínio da Caixa Econômica Federal.

Veja também o Artigo: Paris I – A quem interessa melhorar nossa produtividade (unidade de energia é joule, não caloria)? , o Artigo: Paris II – Arrondissements e o Artigo: Paris III – Nossa Notre Dame.

*Artigos divulgados neste espaço, não necessariamente correspondem à opinião da entidade.

 

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