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10/12/2019

Artigo do Especialista:  Como avançar na maturidade BIM no Brasil?

Wilton Catelani é consultor em Building Information Modeling (BIM) da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e consultor estratégico e integrante do Comitê Estratégico do Governo Federal

 

A criação do BIM Fórum Brasil e do Chapter Brasileiro da Building Smart

Muito já foi feito no Brasil nos últimos anos, para divulgar e estimular a adoção dos processos BIM – Building Information Modeling na indústria da construção, tanto pelo setor público quanto pelo privado.

Os resultados desses esforços já foram medidos por pesquisas de maturidade BIM realizadas no país e não se questiona. É fato que evoluímos.

Essa evolução poderia ter sido ainda mais expressiva não fosse a intensidade da crise que atingiu nosso segmento, mas, uma reflexão interessante é: o que falta para que o Brasil consiga evoluir e avançar na sua maturidade BIM, mais rapidamente e de maneira consistente?

Essa resposta já existe e pode ser encontrada em publicações do pesquisador Bilal Succar (sim, ele novamente).

 

Por que BIM?

Ainda temos poucos dados locais, mas informações estrangeiras (´Benchmarking the Government Client Stage Two Study – December 1999´) e de consultorias internacionais (como Mckinsey) indicam que 70% dos empreendimentos de construção de edificações são entregues com atraso, e 73% acabam custando mais do que seus orçamentos, nossos trabalhadores tem maiores chances de sofrerem acidentes fatais e que nosso segmento desperdiça recursos demais, é ineficiente e muito improdutivo quando comparado a outros setores. Não temos a cultura de investir em inovação e digitalização e, ao mesmo tempo, os projetos e os canteiros de obras estão se tornando cada vez mais complexos.

BIM endereça as principais dores e anseios da indústria da construção civil é a atual expressão da inovação nesse segmento e representa o primeiro passo da sua transformação digital.

 

BIM no mundo e na América Latina

Atualmente, são 15 os países que já exigem o BIM para a realização de projetos públicos. Outros 15 países estão definindo processos e políticas para a exigibilidade do BIM (o Brasil figura neste grupo) e outros cinco (China, Índia, Japão), embora não exijam, encorajam seu uso e apresentam evidências incontestáveis disso, como a publicação de documentos importantes, a criação de um Chapter da Building Smart, etc.

Na América Latina, em maio de 2018, em Santiago no Chile, iniciou-se a criação de um bloco que reúne representantes dos governos de diversos países.

Denominado ´Red BIM de Gobiernos Latino-Americanos´, esse bloco conta atualmente com oito países (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, México, Peru e Uruguai), já realizou quatro reuniões e tem recebido apoio institucional e financeiro do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Neste momento (dezembro/2019) também está em desenvolvimento uma pesquisa de maturidade BIM que abrange 18 países da América Latina. Trata-se de uma iniciativa também apoiada pelo BID, que tem suporte técnico da consultoria Dodge e está mobilizando as câmaras da construção em torno do BIM, aumentando a sua relevância na nossa região.

 

BIM no Governo Federal, no Parlamento e nos Estados

O governo federal brasileiro tem feito a sua parte. Desenvolveu a Estratégia BIM BR, criou o CG-BIM, o Comitê interministerial gestor, responsável pela sua implementação e mais recentemente, através do ´Edital de Chamamento Público´ no. 003/2019 do Ministério da Economia, reservou recursos e está na fase final de contratação da realização de cinco metas e 12 iniciativas específicas para, ao mesmo tempo, remover barreiras e estimular a adoção do BIM no Brasil.

Recentemente, por meio de um requerimento do deputado federal Hildo Rocha, foi recriada na Câmara, a Frente Parlamentar BIM.

No nível dos Estados, Santa Catarina foi pioneiro na estruturação de uma política específica para exigibilidade do BIM. Sabe-se que outros estados também têm feito seus esforços específicos e mais recentemente, no dia 19 de outubro de 2019, foi criado o COSUD – Consórcio de Integração Sul e Sudeste, que é um acordo de cooperação entre os estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo para estabelecer uma estratégia comum de disseminação do BIM.

 

Como medir a maturidade BIM de um país?

As publicações do pesquisador B. Succar indicam que os ´focos´ das avaliações e análises da maturidade são diferentes, na medida em que se ascende numa ´escala de adoção BIM´. Dessa forma, no nível ´micro´, quando se avalia um único indivíduo ou uma unidade organizacional isoladamente, as discussões deverão ser diferentes da abordagem para o nível ´meso´, quando se analisa a maturidade de uma equipe de projeto (envolvendo várias empresas) e do nível ´macro´, que é o nível mais amplo e se refere a um ´mercado´ ou um ´país inteiro´, no qual o ponto central a ser avaliado deverá ser a ´difusão´ de todos os ´conceitos´, ´padrões´ e ´referências´ e a ´coordenação´, para que não haja retrabalho nem tampouco a perda de esforços.

As referências desenvolvidas por B. Succar estruturam, detalham e listam cinco dimensões para a medida dos processos, tecnologias e políticas utilizadas num país. Uma dessas cinco dimensões é denominada ´nivel de maturidade´ dos principais ´habilitadores´ para a adoção BIM nos mercados. Essa dimensão se subdivide em oito componentes de maturidade: Estágios, Liderança, Leis & Regulamentos, Documentos Técnicos, Educação & Capacitação, Gestão da Evolução, Padronização de ´Entregáveis BIM´ e Infraestrutura Tecnológica; que podem ser classificados em cinco níveis: 1 – Baixa (ou adhoc), 2 – Média-baixa (ou definida), 3 – Média (ou Gerenciada), 4 – Média-alta (ou Integrada) e 5 – Alta (ou Otimizada).

Em 2017 o nível de maturidade BIM do Brasil, para o componente da ´Liderança´, poderia ser considerado ´médio-baixo´, que é descrito como: ´há um ou mais líderes voluntários e/ou impulsionadores BIM informais atuando no país´. Os principais esforços de disseminação do BIM nesse período eram realizados por desenvolvedores de softwares e por algumas empresas, organizações ou grupos específicos e isolados. Em 2018, quando foi desenvolvida a ´Estratégia BIM BR´, poderíamos dizer que o país evoluiu para o nível de ´média maturidade´, que é descrito como: ´há um grupo de trabalho ou comitê unificado dirigindo a implementação / difusão de BIM no país´.

Entretanto, a nossa meta deve ser a de galgar o próximo nível desta escala que é o ´médio-alto´ e é descrito como: ´Impulsionadores organizados coordenam todas as ações de macroadoção, minimizando sobreposições de atividades e atuando sobre as lacunas na difusão´.

 

O BIM Fórum Brasil

Uma pesquisa encomendada pela CBIC e pelo Senai e realizada no final do ano de 2018 identificou e estudou 50 entidades que visam a coordenação das atividades relacionadas à difusão do BIM em mais de 40 países. Essa pesquisa indicou claramente que estamos atrasados neste ponto específico no Brasil e que deveríamos criar uma nova entidade: o BIM Fórum Brasil, com a missão de realizar essa necessária coordenação de esforços para difusão, de maneira equalizada e representando os diferentes e principais interesses daqueles que integram a cadeia produtiva da construção.

O ´nome´ BIM Fórum Brasil revelou-se como o mais adequado, quando se considera que em oito dos países pesquisados, as entidades correlatas, adotam esse mesmo nome.

Os dados coletados na pesquisa e as análises das organizações existentes no mundo serviram como subsídio para o ´desenho´ da entidade brasileira que prevê duas maneiras para a participação dos futuros associados: uma abordagem estratégica, a partir da escolha de um dos sete colegiados previstos, ou num viés técnico, através da participação em um dos grupos técnicos de trabalho (temáticos) que serão criados.

Os colegiados foram ´pensados´ e propostos para representarem os ´interesses´ dos diferentes integrantes da cadeia da construção e seriam os seguintes: 1 – Proprietários, Incorporadores e Investidores, 2 – Governos e Autarquias, 3 – Empreiteiros e Construtores, 4 – Escritórios de Projetos, Coordenação, Consultoria e Gerenciadoras, 5 – Fabricantes de Componentes, 6 – Desenvolvedores de Softwares e 7 – Academia e Entidades de Capacitação de RH. Ao se associar, uma empresa ou entidade deverá escolher um (e apenas um) dos sete colegiados que melhor represente seus ´interesses´. Inicialmente foi proposto que apenas pessoas jurídicas poderiam se associar ao BIM Fórum Brasil.

O trabalho de definição prévia do BIM Fórum Brasil incluiu a proposta de uma visão e de uma missão (preliminares) para a nova entidade, uma lista dos potenciais benefícios para as cinco diferentes categorias de associação (Patrocinadores, Platinum, Gold, Silver e Bronze), a definição de valores para as anuidades, os custos para a sua operação e também uma proposta inicial para o seu estatuto. Esse estudo inicial do estatuto define e detalha 87 artigos e é um instrumento chave para garantir que a entidade uma vez criada possa, de fato, cumprir o propósito principal que justifica sua criação, de maneira independente da ´vontade´ ou interesse de pessoas ou grupos específicos.

 

A criação do Chapter Brasileiro da Building Smart

A Building Smart é uma organização internacional sem fins lucrativos que estuda e visa a troca de informações entre aplicativos de software usados na indústria da construção. É a organização que desenvolveu o IFC – Industry Foundation Classes, que é uma estrutura expansível de dados (e também um formato de arquivo) neutro e aberto, que hoje é suportado por uma Norma ISO, e é utilizada para a interoperabilidade entre diferentes softwares BIM. A Building Smart define padrões para a organização das informações incorporadas nos objetos e modelos BIM, tornando possível que diferentes softwares as ´entendam´ e possam reutilizá-las realizando processos ou parte deles, de maneira automatizada.

A Building Smart trabalha através de ´Chapters´ no mundo todo. A criação dessa organização no Brasil já vem sendo discutida há algum tempo e quando viabilizada, também vai representar o aumento da maturidade BIM do nosso país.

 

Conclusão

Embora os avanços da maturidade BIM do Brasil nos últimos anos sejam visíveis e inquestionáveis, não temos ainda uma organização que efetivamente possa coordenar as ações de macroadoção, minimizando a sobreposição de atividades e atuando sobre as lacunas na difusão.

Numa situação ideal, precisaríamos criar uma ´instituição´ cuja estrutura de governança não permita o domínio de sua direção por nenhum grupo específico, que pudesse realmente representar os vários atores da cadeia produtiva, se estabelecer como a principal referência de BIM no país e se consolidar como líder nas ações para sua difusão, atuando na coordenação dos esforços de forma neutra, abrangente e harmônica.

No último dia 25 de novembro a CBIC reuniu em São Paulo alguns dos principais nomes envolvidos com o BIM no Brasil. Nesse evento foi apresentada e discutida a iniciativa de criação do BIM Fórum Brasil e também foi proposta a criação do Chapter Brasileiro da Building Smart não como outra entidade isolada mas, sim,´dentro´ do BIM Fórum Brasil, ou seja, como uma das suas iniciativas ´pétreas´, o que a caracterizaria como uma ação que não poderá ser paralisada ou ´extinta´.

Nesta ocasião estiveram presentes diversas entidades como a ANTAC, a ASBEA, o CAU-SP, a ABECE e o CBT – Comitê Brasileiro de Túneis, além de empresários e representantes de empresas relevantes da indústria da construção. Todos os presentes concordaram sobre a importância da criação do BIM Fórum Brasil e também sobre a conveniência de criar o Chapter Brasileiro da Building Smart vinculado a ele.

CBIC e Senai já têm investido na iniciativa da criação do BIM Fórum Brasil e pretendem continuar apoiando, vão ´incubar´ o nascimento da nova entidade, mas os recursos atualmente disponíveis são insuficientes para sua viabilização. Empresas e entidades interessadas em colaborar com esta iniciativa poderão celebrar ´convênios de cooperação financeira´ e ´protocolos de intenção para associação futura´ fazendo contato através do e-mail comat@cbic.org.br.

As articulações e negociações vão continuar e nos próximos dias será criado e lançado um ´Manifesto de Apoio à criação do BIM Fórum Brasil e do Chapter Brasileiro da Building Smart´.

Esteja atento e assine esse ´Manifesto´. Junte-se à essa iniciativa fundamental para o avanço da maturidade BIM do Brasil.

O tema BIM tem interface com o projeto ‘Tecnologia e Inovação na Indústria da Construção’ de autoria da CBIC com o Senai Nacional.

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