INVESTIMENTO SOCIAL PRIVADO – RETROSPECTIVA 2017

2017: ano de mudanças, novos projetos e amadurecimento do campo do investimento social privado

O ano de 2017 foi intenso para o Brasil e, como não poderia deixar de ser, se refletiu também no campo do investimento social privado (ISP). O período foi marcado por muitas reflexões sobre caminhos a seguir e diversas iniciativas de fortalecimento do setor, comprovando o amadurecimento dos projetos e programas dos investidores sociais.

Ao fazer uma retrospectiva do que representou 2017, José Marcelo Zacchi, secretário geral do GIFE, destaca movimentos interessantes. Internamente na organização, o ano foi de renovação. A própria secretaria geral teve a transição de André Degenszajn e a chegada de José Marcelo; um terço do Conselho de Governança se renovou e a presidência passou de Beatriz Johannpeter para Neca Setubal, além da chegada de novos profissionais que passaram a compor a equipe do GIFE.

“Mesmo diante de um ano de muitas transições, vemos um enraizamento e uma solidez muito grande de continuidade das ações, devido a processos de governança e gestão consolidados, o que primeiro permitiu passar por estas mudanças. E, este lastro, na atuação do GIFE, nas três dimensões de pensar o seu impacto e linha de trabalho, vemos de fato o próprio campo do ISP mais fortalecido, com mais atores envolvidos, mais ações sendo realizadas, assim como iniciativas que estão à serviço de nutrir uma sociedade civil mais autônoma, sólida e vigorosa, fortalecendo esse tecido de ação coletiva, quanto na dimensão de aprofundar sempre a conexão destes esforços com as soluções que se atentem à agenda pública do país. Nestas três dimensões, vemos muita trajetória de sequência e fortalecimento”, ressalta José Marcelo.

Muitas ações foram promovidas em 2017 que exemplificam o cenário traçado pelo secretário geral do GIFE e destacam a atuação nas oito agendas estratégicas traçadas pela organização.

Uma das novidades foi o início do projeto Sustentabilidade Econômica das Organizações da Sociedade Civil (OSC), que se insere no contexto da discussão do marco legal e regulatório para as doações no país e é realizado pelo GIFE e pela Coordenadoria de Pesquisa Jurídica Aplicada (CPJA) da FGV Direito São Paulo, em parceria com o Instituto de Pesquisas Aplicadas (IPEA) e com apoio da União Europeia, Instituto C&A, Instituto Arapyaú e Fundação Lemann.

“O projeto atua justamente neste aprofundamento de questões do campo para fortalecimento da sociedade civil, valorizando o seu papel. No momento atual que vivemos no país, mais do que nunca, sabemos o quanto é vital termos uma sociedade densa, rica e diversa para conseguirmos avançar na esfera pública e prevenir redemoinhos e retrocesso”, comenta José Marcelo.

Neste processo, foi formado o Grupo de Discussão sobre Sustentabilidade Econômica das OSC, que tem como objetivo discutir os temas relacionados à ampliação dos recursos privados para as OSC nas frentes do projeto – fundos patrimoniais, ITCMD, MROSCincentivos para doação – e de estabelecer propostas e estratégias de atuação conjunta. Foram realizadas quatro reuniões em 2017, que seguem no próximo ano, reunindo investidores sociais, consultores, advogados, juristas, profissionais de organizações da sociedade civil, entre outros profissionais. O projeto promoveu ainda uma Consulta Pública, além de diversos encontros, e uma boletim eletrônico especial sobre o tema.

“Levamos também a discussão do projeto para as redes de investidores sociais regionais em vários estados. Agora, com o grupo formado e a agenda aprofundada, vamos mais a fundo neste esforço de incidência”, completa o secretário geral do GIFE.

Olhando para a complexidade e a diversidade do campo do investimento social no país, o GIFE promoveu ações específicas, como o Encontro GIFE de Investimento Social Familiar, visando fortalecer e ampliar a filantropia familiar no Brasil. A iniciativa reuniu mais de 60 pessoas, entre institutos e fundações, assim como demais interessados em debater sobre os desafios e as tendências para este campo no país. O encontro resultou ainda num vídeo especial sobre o assunto, assim como uma publicação.

Nesta mesma linha foi promovido o Encontro GIFE de Investimento Social Empresarial, reunindo mais de 110 representantes de institutos, fundações e empresas – associadas ou convidadas. A iniciativa foi uma oportunidade para aprofundar e refletir sobre temas desafiadores do setor, tendo como base o sentido público do ISP.

Articulação e relacionamento

As Redes Temáticas – ambientes de diálogo propostos e coordenados pelos associados GIFE, que realizam o aprofundamento de temáticas específicas do investimento social, a partir de sua atuação – promoveram uma série de ações em 2017, a começar pela criação da nova Rede Temática de Cultura.

Já a Rede Temática de Negócios de Impacto Social, por exemplo, promoveu três encontros, nos quais foram discutidos diversos assuntos, como a importância dos intermediários para o fortalecimento do campo, como a filantropia vem lidando com as fronteiras entre investimento social privado e investimento de impacto, contando, inclusive, com a participação especial de Randall Kempner, diretor executivo da Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE).

A Rede Temática de Leitura e Escrita de Qualidade para Todos colocou em pé seu plano de ação, com a criação de vários grupos de trabalho, nos quais foram produzidos indicadores sobre o tema, assim como um projeto colaborativo piloto em Nova Iguaçu. A Rede Temática de Garantia de Direitos da Criança e Adolescente também promoveu uma série de reuniões para dar sequência ao plano de ação, tendo como uma das linhas de trabalho influenciar nas relações entre empresas e Direitos Humanos.

Esta rede realizou, ainda, o Seminário “Violência contra crianças, adolescentes e jovens: desafios e soluções”, que contou com a presença de deputados, especialistas e atores envolvidos com a garantia de direitos, e teve como objetivo trazer um diagnóstico sobre a violência e destacar boas práticas para o seu enfrentamento, como soluções multisetoriais e integradas e fortalecimento dos Conselhos de direitos de crianças e adolescentes.

Já a Rede de Políticas Públicas articulou um workshop sobre gestão pública para investidores sociais, compreendendo que órgãos e atores do poder público têm grande relevância para o ISP na implementação de seus projetos,

Em 2017, também foram realizados três encontros da Rede Temática de Gestão Institucional, com temas como planejamento estratégico e gestão de metas; cargos e remuneração; e gestão de talentos. Nessa última reunião, por exemplo, a ideia foi compartilhar as experiências e aprendizados sobre atração, recrutamento e retenção de pessoal vivenciados pelos associados do GIFE – Fundação Grupo Boticário e Fundação Lemann – que, a convite do GIFE, representaram o Brasil no Salzburg Global Seminar, realizado na Áustria.

O grupo de comunicação teve encontros periódicos ao longo do ano para pensar em como avançar como grupo e estruturar o lançamento de uma rede de comunicadores para transformação, que acontecerá no X Congresso GIFE.  (Associados interessados em saber mais sobre o grupo podem escrever para mariana.moraes@gife.org.br)

As articulações e processos colaborativos também avançaram em outros Estados, fortalecendo o investimento social privado fora do eixo Rio-São Paulo, por meio da Rede de Investidores Sociais do Interior Paulista (RIS), da RIS Distrito Federal e da RIS Curitiba.

Conhecimento e ação

Diversas temáticas estratégicas e relevantes para o campo ganharam força neste ano, dando sequência em projetos em andamento ou com a criação de novas ações. Esse é o caso dos Indicadores GIFE de Governança, instrumento online de autoavaliação para qualquer organização da sociedade civil sobre o grau de desenvolvimento de sua governança. Em 2017 o GIFE produziu dois informes sobre os resultados apontados pelo preenchimento dos Indicadores. O segundo informe, inclusive, buscou ainda destacar as alterações relevantes em relação ao primeiro. Até agora, a plataforma conta com 123 respondentes e mais de 8600 acessos ao ambiente virtual.

O ano também foi momento para produzir e lançar o primeiro informe do Painel GIFE de Transparência, ferramenta online que organiza e disponibiliza informações institucionais relevantes sobre as fundações e os institutos associados ao GIFE a partir de um grupo de indicadores. O informe traça um breve panorama sobre o nível de transparência dos institutos e fundações que desenvolvem investimento social privado. Ao indicar os itens mais e menos publicizados pelas organizações, ele aponta as áreas em que as organizações estão mais avançadas e aquelas que requerem um maior esforço de mobilização. Até o momento, 53 organizações participam do painel.

O campo de avaliação – também agenda estratégica do GIFE e desafio permanente para o setor – contou com várias iniciativas neste ano para aprofundar o conhecimento a respeito, com destaque para o Ciclo de Avaliação – Antes, Durante e Depois de avaliar, promovido pelo GIFE, pela Fundação Itaú Social e a Fundação Roberto Marinho. Além dos encontros promovidos, o Ciclo gerou uma série de publicações sobre a temática que podem ser conferidas aqui.

Mais conhecimento sobre o campo também foi disponibilizado pelo GIFE a partir da Pesquisa Salarial 2017 (4ª edição), que contou com o resultado de 35 organizações participantes, 3052 colaboradores pesquisados, 15 benefícios e 91 cargos (dos quais 68% tiveram amostragem). A pesquisa apresenta uma análise exclusiva de salários, benefícios, programas de remuneração em organizações, entre outros dados. Entre as principais novidades desta edição, estiverem, por exemplo, o fato de que o estudo apresentou práticas de gestão e indicadores de gestão de pessoas, bem como análises de recorte de gênero e outras comparações e os participantes puderam se comparar com as mais de 900 empresas do setor privado.

Ainda em 2017, o GIFE lançou a oitava edição do Censo, trazendo as principais tendências e mudanças na prática dos maiores investidores sociais privados do país. Realizada desde 2001 com os associados GIFE, a pesquisa aborda uma grande variedade de temas, fornecendo um panorama sobre estrutura, forma de atuação, estratégias e programas das empresas e dos institutos  e fundações empresariais, familiares, independentes e comunitários que destinam recursos privados para projetos de finalidade pública.

Nesta edição foram aprofundadas certas temáticas, como negócios de impacto social, recursos humanos, diversidade e a relação dos investidores sociais com as organizações da sociedade civil e com as políticas públicas. Além disso, a abordagem dos projetos e programas dos investidores sociais foi bastante aprimorada, resultando em um conjunto de informações muito mais denso e completo sobre as formas de atuar das organizações.

Em 2017 foram lançados dois produtos desta edição do Censo, os Key Facts e a publicação completa da pesquisa. Em 2018 serão ainda disponibilizados para todos os respondentes os relatórios de comparação.

“O Censo atualiza a nossa perspectiva e traz uma radiografia no campo, permitindo uma reflexão e leitura de trabalho para incrementar nossa atuação”, pondera José Marcelo.

Ampliando o alcance

Para colaborar com conhecimento, promover troca de experiências e levar o debate do ISP para outros espaços, o GIFE se faz presente também em vários eventos e grupos de relevância no país, como o Comitê Gestor da Plataforma de Filantropia do PNUD, o FIIMP (Fundações e Institutos de Impacto), a Força Tarefa de Finanças Sociais, o Movimento por uma Cultura de Doação, a Rede de Mensuração de Impacto (INSPER), Wings Affinity Group, Estratégia ODS, Coalizão Empresas e Direitos Humanos, entre outros.

A comunicação foi também elemento estratégico para disseminar a discussão e conhecimento para novos territórios e locais. Em 2017, o boletim semanal RedeGIFE chegou a edição número mil, além da realização do webinar – Marco Regulatório das OSCs – diálogos sobre os desafios e as potencialidades – e os debates online pré X Congresso GIFE. Os temas foram: Brasil, democracia e desenvolvimento sustentável; Quais os desafios de doar no Brasil?; e Gênero e raça: como olhar os temas de forma transversal?

E, como não poderia deixar de ser, o GIFE também se dedicou a promover a cultura de doação do país, participando ativamente de uma nova iniciativa, o Fundo BIS. A iniciativa nasceu de um grupo de organizações da sociedade civil com reconhecida atuação no campo socioambiental que se uniram em prol dessa causa. Em 2017, foi lançado o primeiro edital, com apoio a quatro projetos a serem executados em 2018. Nesta fase inicial do Fundo BIS, a iniciativa está sendo incubada pelo GIFE.

Para fechar o ano, o GIFE lança e convoca o setor para participar do X Congresso GIFE, que terá como tema “Brasil, democracia e desenvolvimento sustentável”, estabelecendo a articulação do ISP com os desafios da sociedade atual.

“Queremos avançar em temas essenciais da agenda não só do país, mas do mundo, dialogando com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), trazendo à tona de que forma os investidores sociais podem estar mais presentes em temas que temos ainda tanta incidência, como as áreas de recursos naturais, água, energias renováveis, assim como promoção da diversidade, como apontados pelo Censo, além de questões como violência, segurança, crise das instituições democráticas e novas formas de participação. Trata-se de um trabalho conjunto, de articulação junto às grandes demandas e, como estes temas poderão ser tocados e aprofundados em 2018”, ressaltou o secretário geral do GIFE.

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