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Agência CBIC

10/05/2019

Artigo do Especialista: Paris VI - Ilhas

 

Dionyzio Antonio Martins Klavdianos é vice-presidente de Área da CBIC e presidente da Comissão de Materiais, Tecnologia, Qualidade e Produtividade (Comat)

 

 

Precisei mais do que as 5 a 6 horas previstas para ler as 200 páginas que restavam do Capitão Mihális. O jantar inesperado, servido logo após a decolagem do voo das 15h15 para Paris e o apagar das luzes em seguida, deixando-nos poucas opções além da de dormir com as galinhas mudou meus planos. Não mantenho acionada por muito tempo a lâmpada que cabe a meu assento, preocupado que fico em não incomodar quem viaja, literalmente ombro a ombro, a meu lado.

O livro de Nikos Kazantzakis é uma ode à resistência do povo grego contra o jugo de 400 anos imposto pelos turcos. Passa-se na ilha de Creta, terra natal do escritor, e gira em torno de personagens fictícios, mas com base nos de sua família. Quem é grego ou descendente como eu, sabe que a história poderia ser muito bem a de meu pai, nascido na ilha de Zakynthos, única nunca ocupada pela Turquia, ou de qualquer outro conterrâneo, que teve de aprender a brincar, estudar, trabalhar, amar… uma vida normal, enquanto lutava contra a fome, o inimigo e a morte fora de hora.

Faço questão de levar Gicelene ao Quartier Latin, outrora conhecido como reduto grego na cidade de Paris tamanha a quantidade de tavernas lá existentes. Uma senhora grega numa pequena delikatessen nos indica o local aproximado, mas nos adianta, com certo pesar, que já não é mais como antes e de fato , ao chegar lá, percebo que se há alguma semelhança é com Plaka, o bairro antigo ateniense incrustado aos pés da Acrópolis, tamanha a mixórdia de turistas engarrafados em frente a restaurantes de cozinhas internacionais das mais variadas, confusos com tanta placa promovendo o prato ideal resultado da conta custo & benefício.

Ainda há os gregos, mas poucos e decadentes, consigo até encontrar, acho, aquele no qual estive da última vez, meio cafona, uma mesa só ocupada, cozinha e vinho grego honestos e dono, pasmem, turco! O caixa até me fez lembrar do Paxá descrito no livro do escritor grego.

O arquiteto Andres Viguier nunca soube a razão de uma de suas criações mais emblemáticas, uma torre icônica em La Defense, chamar-se Majunga, até o dia em que recebeu um telefonema de jornalista francês, que lhe contou tratar-se do nome de um vilarejo de pescadores da ilha de Madagascar, onde nasceu.

Provavelmente, nos conta o arquiteto, alguma das inúmeras batalhas francesas tenha acontecido no local e o nome da torre homenageia militar de patente que lá tenha lutado. São comuns no país tais homenagens, o arco do triunfo tem em suas paredes incrustrados o nome de mais de 2.400 militares de patentes mortos em batalhas e cada uma das alas do Louvre homenageia um famoso general.

Feliz com a descoberta da origem do nome o arquiteto se viu na obrigação de retribuir aos moradores do local a solicitude do empréstimo do nome àquela que é um de seus projetos mais famosos. Visitaram a vila, interagiram com os moradores, viram o estado calamitoso das escolas, fizeram novo projeto valorizando materiais locais, coordenaram a construção dos novos prédios e só importaram a cobertura anti-chamas, visto que a local era permissiva a incêndio.

Conto ao meu pai que ouvi novamente do João Pimenta a história de que ainda na década de 1970 fora procurado por ele na empresa na qual era o responsável pelo departamento de engenharia e que o João, em princípio sem jeito, achando que ele iria pedir satisfações por ter perdido a concorrência de um importante serviço de instalações, surpreendeu-se com o fato de meu pai na verdade ter solicitado a visita unicamente para agradecer a forma respeitosa que sua empresa havia sido tratada em todo o processo. Meu pai me sorri da forma simpática que costuma, pensa um pouco, de certo rememorando o fato e a época, e pergunta em tom de lamúria, onde o país errou para não ter evoluído mais neste tipo de relacionamento e situações.

Sentado à mesa, enquanto acompanho a conversa entre o João Pimenta e Paulo Octavio contemplo uma bela pintura retratando Dom Quixote e Sancho Pança. Coincidência, estou agora relendo o volume II do compêndio muito por causa dos capítulos em que o fiel escudeiro recebe finalmente de presente a ilha de Baratária, prometida pelo cavaleiro para que governasse e, contrariando todas as expectativas, realiza um reinado e tanto, trata-se do mais bonito exemplo de boa governança que já vi descrito em um livro.

Que nossa gestão mescle o destemor de Amadis de Gaula, o maior de todos os cavaleiros andantes citados por Dom Quixote, e a temperança de seu fiel escudeiro.

 

A premiação é uma iniciativa da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), em correalização com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai Nacional), e conta com o patrocínio da Caixa Econômica Federal.

Veja também o Artigo: Paris I – A quem interessa melhorar nossa produtividade (unidade de energia é joule, não caloria)? , o Artigo: Paris II – Arrondissements , o Artigo: Paris III – Nossa Notre Dame e o Artigo: Paris IV – Paris-Brasília.

*Artigos divulgados neste espaço, não necessariamente correspondem à opinião da entidade.

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